segunda-feira, maio 05, 2008



(Sónia Serrano)

POEMA PARA UMA SIMPLES TÁBUA NUM NAUFRÁGIO

Como dois náufragos
Agarrámos em desespero
Uma pequena prancha de poesia
Que ousava flutuar
Nas turbulentas águas
Das nossas vidas, roxas, implodidas.
E quase nos afogámos
No mar de fel dos ressentidos.

Contudo, não submergimos…

Crianças de neve e aves de cristal
Em nós já despertavam.

Adivinhava-se um marulhar de ondas, num sussurro,
Prometendo perdoar longas ausências
E troçavam da escuridão dos nossos medos
Os risos sarcásticos dos melros pretos da fajã.

Em cada madrugada,
Para nosso encantamento,
Acordávamos com os olhos verdes.

E ríamos com os melros, pousando nos incensos,
Espreitando, a tempo, vindimas temporãs
E pragas de rocheiros.

Caíamos a pique, falésia abaixo,
Na vertigem libertadora dos queimados.
Como o vento do norte
Lavrávamos o mar
E feríamos com gumes afiados de navalha a cara dos incautos.

Era aí que respirávamos a paz das almas simples.

Aníbal Raposo
Porto, 5 de Maio de 2008

6 comentários:

  1. Eu tinha por dentro
    um palhaço azul
    duas cores que vivendo como o centro
    são assim como uma flor sobre o Sul.

    Já não sei se é esta a casa
    a luz quente de que escrevo
    nem se é o pássaro aquela casa
    Onde no amor me descubro.

    Estás longe, e tão perto
    como se fosses esse búzio
    onde eu na alma acudo
    este meu poeta confuso.

    E sentado sobre a memória
    acho-me ainda o palhaço
    que se ri pleno na sua glória
    a gargalhada do seu mor falhanço.

    Tenho o retrato na mente
    não me pergunto se te falo ou ligo-te,
    mas há o teu retrato como um móvel
    essa mobília que só beijando eu digo-te.

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  2. Parabéns pelo blog.

    http://desabafos-solitarios.blogspot.com/

    http://paixoes-longinquas.blogs.sapo.pt/

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  3. Muito lindo, parabéns.
    Ana Martins

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  4. Aníbal,

    Emocionou-me o teu talento doloroso, lugar de silêncio que é voz, e música e paixão.

    A maestrina de Lisboa deixa o seu muito obrigada.

    ppina

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