quarta-feira, novembro 19, 2008



NO PANO VERDE

Confessemos que aos vinte anos
Tudo era mais directo e fácil:

Como pintores talentosos,
Em traços ágeis de lápis de carvão
Circunscrevíamos a besta,
E pum!

Caída no goto
(E no conveniente ritmo)
A justa palavra de ordem,
Previamente verificada,
Pelos novos inquisidores,
A conformidade com a cartilha revolucionária
Estudada em duas noitadas breves:
Zás!
Mandávamos
(Ou pensávamos ter mandado) a dita abaixo
Com dois tiros certeiros.

In illo tempore,
Ríamos de tudo,
De tão convictos e inocentes que éramos.
Personagens do Decameron
De Pier Paolo Pasolini.
Usufruíamos das imaturas certezas
Com a enorme pujança
Dos que sonham acordados.
E parecíamos gozar por breves instantes
A ilusão idiota de ter o poder contido
Na firmeza dos nossos punhos erguidos.

Algumas (poucas) vezes
Para nossa felicidade breve
Parecíamos sentir a besta soçobrar,
Agonizando.
Caída, ali, exangue,
No chão, bem à nossa frente,
Pronta a ser imolada nas chamas
Do sacro altar das nossas convicções juvenis.


Agora,
Agora, não...
Na fase outonal da nossa vida,
Tudo se tornou mais esbatido, sofisticado...

Jogamos às cartas sobre o pano verde
Com a dita besta,
Que entretanto se tornou educada, polida,
Diria até doméstica, familiar e supostamente sensível,
Sob pálida luz amarelada dum candeeiro art nouveau.

Bebericamos com ela umas flutes de champanhe.
E no degustar de alguns canapés
Tentamos adivinhar-lhe a próxima cartada,
Aparando-lhe o jogo.

Podemos até desafiar a nossa inteligência
Arquitectando mais um lance subtil que demore a contenda.
Afivelando a máscara perfeita
Procurar, para alívio da nossa consciência, o lance mágico.
O que consiga equilibrar na corda bamba
A débil coerência que nos resta.
É sempre consolador fazer algumas vazas...

Tudo isto debaixo da clara percepção
Que neste jogo viciado
A besta açambarcou os trunfos todos
E é certo e sabido que, no fim,
Nos vai ganhar.

Baia do Fanal, Angra do Heroismo
2008-11-19
Aníbal Raposo

1 comentário:

Paula Raposo disse...

Pois é. Beijos.