Fotografia: Sónia Nicolau
FIM-DE-SEMANA
a dita civilização
e a neblina húmida
beijando os pés
das almas frias, gémeas
dum fim-de-semana
invernoso.
Na minha fajã
o sol insiste em acariciar-me a cara
e aproveita para me fazer ciúmes
beijando cada árvore que plantei.
Ao meio-dia os sargos,
de frescos, saltam na grelha.
Reaparecem os cheiros da infância
na coluna de fumo
que se ergue da fogueira
de canas, verticalmente,
na atmosfera calma.
A primavera apressada
quer já fazer-se anunciar
nos abrolhos verdes
dos ramos das figueiras.
E há sempre, no cimo da falésia
o pio dos milhafres, aves irmãs
orgulhosas e libertas.
Esta é a oração mais piedosa
que me ocorre nesta hora:
bendigo o Criador do universo
por estar vivo,
aqui e agora.
Aníbal Raposo
2009-01-11