sábado, novembro 08, 2014
O SÍTIO ONDE ME ENCONTRO E SEI DE MIM
Por verdade ser, quero declarar
Que num mundo atulhado de vaidade
Resta um lugar bendito junto ao mar
Onde se partilha pão e amizade.
Um sítio, de homens livres no voar,
Onde tu és tu mesmo de verdade,
Não tens de te vender ou mascarar,
Não conta a condição nem conta a idade.
Ali me escondo eu sem ser cobarde
Dizendo muitas vezes sem alarde
Que bom meu Deus viver dias assim.
Sempre que o sol se acende ao fim da tarde
O coração no peito também arde.
É na fajã que me encontro e sei de mim.
Relva, 2014-11-08
Aníbal Raposo
sexta-feira, julho 29, 2011
quarta-feira, novembro 17, 2010
(foto: Sónia Nicolau)
DIA NA FAJÃ
Acorda mulher
Que já é manhã
Um canário canta
E enche a fajã.
É levantar cedo
Que a faina é comprida
Mexe-me esses ossos
Termina uma vida.
O sol está a pino
O calor aperta
Pios de milhafre
Falésia deserta.
E tu meu amigo
Afoga esta mágoa
A maré está cheia
Marrecos p'ra água.
Logo ao fim da tarde
Faz maré vazia
Vai pedir um laço
À casa da tia.
Vê lá não me enredes
Em conversas-teia
É que as duas manas
Já estão à moreia.
Depressa p’ra poça
Vai a minha equipe
Que existe uma taça
Aqui em despique.
Carrega no engodo
Despe-te que suas
Já sabes que a taça
É sempre p’ras duas.
Chega o fim do dia
Sem fumos nem carros
Ouve a sinfonia
O som dos cagarros.
Cara sem vergonha
És mesmo um cachorro
Não me ouves gritar
Ai Jesus que eu morro?
Ti Mané Caroucho
A coisa está feia
Dizem que já nascem
Bananas na areia.
Olha, não me digas...
Arreda! Demónio!
Dessa qualidade
Só tem o Sidónio.
Venho p’ra folia
Que não tenho sono.
Não me digas que esta
Rocha não tem dono...
Peixe no braseiro,
Hora de jantar,
Se és bom companheiro
Vem aqui cantar.
Vem aqui cantar
Nesta noite bela
Mas vais amarrar
Primeiro a cadela.
Não te preocupes
Já está amarrada
Não pega em ninguém
Aqui da latada.
No escuro da lua
Solta os teus desejos
Acende o farol
Vai aos caranguejos.
Com vento do sul
E um breve aguaceiro
Leva um saco grande
Vais ser o primeiro.
Ouve rapazinho
Já arranjei o saco
E vou-me aos fidalgos
P’ro pé do Buraco.
Depois da apanha
Se estiveres gelado
Passa cá em casa
E toma um abafado.
Toma um abafado
Que fugiste à selva
Num dia passado
Na Rocha da Relva.
Relva, 17 de Novembro de 2010
Nota:
Esta é uma cantiga ao gosto popular, escrita em código rocheiro (falar dos utilizadores da fajã da Rocha da Relva), que será gravada no meu próximo CD.
