sexta-feira, novembro 14, 2008


O homem do leme - escultura de Américo Gomes

DA VIDA E DO RUMO

No que concerne
À atitude
Assumo a postura
Do fio-de-prumo.

Rectilínea,
A probidade do espírito.
A esquadro a traço.

O círculo perfeito, destino
À verdade e à lealdade,
Virtudes irmãs
Que risco a compasso.

E a proa da barca
Da vida e da morte
Apontada a norte
Por ser o meu rumo.

Relva, 2008-11-17
Aníbal Raposo

quarta-feira, novembro 12, 2008


À HORA EM QUE OS POETAS SE INQUIETAM


Há momentos tão feitos à dor

Que soltam sentimentos, que os despertam.

Eu, por mim, sou dado a males de amor

À hora em que os poetas se inquietam.

 

Na hora em que os meus versos nascem soltos

Há um pôr-do-sol tão roxo que seduz.

As formas em recorte contra-luz

E os mares do meu peito tão revoltos.

Um bando de estorninhos, nuvem preta.

A dança em rodopio dos morcegos.

Há um ferver do sangue do poeta

Que entrou na hora dos desassossegos.


Rocha da Relva, 2002

Aníbal Raposo

terça-feira, novembro 11, 2008



A MARCHA

Porque é que ao caboucar o poema
Me vêm sempre à lembrança
Imagens inesperadas
Que me tolhem a fluidez do verso?

Porque é que a razão e o sonho
Em mim sempre se atropelam
Na estúpida ansiedade
De quererem ser as primeiras a cortar a meta?

Porque é que vislumbro sempre vis cumplicidades,
Na persistência das sombras que me agridem,
Me servem penosas insónias nocturnas
E me encrespam o riso?

Às vezes penso que esses fantasmas assim agem
Porque ouviram, de segura fonte,
Que o riso é o som da água que corre
Na ribeira do pensamento cristalino,
Das consciências livres.

Ouviram e sabem que a felicidade
Flutua na turbulenta torrente da utopia,
Que é o pão e o vinho das almas libertas,
De preconceitos e máscaras.

Das almas que ousam romper
As grilhetas que guardam cativas
As tristes personagens do grande teatro de marionetas
Em que transformaram as nossas vidas.

Por isso nos querem,
Marchando:
Todos sem tempo,
E todos a tempo.

E nós lá vamos
Marcando passo
Com as botas da tropa
E também com outras
De biqueira de aço.

Um! Dois! Três!
Esquerdo! Direito!
Perfeito!

No tempo certo,
Marcando passo.
Tudo a preceito,
Tudo proveito,
Tudo a compasso. 

Ponta Delgada, 2008-11-11
Aníbal Raposo

sexta-feira, outubro 31, 2008



COLECCIONANDO ESTRELAS

Em vez de andares a vasculhar
Por entre as teias do sótão do ressentimento,
Aproveita o dia...

Deixa este sol de Outono
Acariciar-te a cara e diz:
Estou vivo!

Põe-te a escrever as canções que faltam
No teu sonhado álbum branco:
O luminoso.

Tu sabes bem que é na lua nova
O tempo certo para se coleccionar estrelas.

Põe as palavras de amor
A vibrar na frequência exacta,
Como se tentasses afiná-las
Pelo sagrado diapasão do universo.

E lembra-te que o poema mais sublime
Tem o tom do que é e faz sentido.

Ponta Delgada 2008-10-31
Aníbal Raposo
Dali - A persistência da memória

VENTOS DA MEMÓRIA

E de repente surgem, nos ventos da memória,
Vertendo os rios do meu olhar fora do leito,
Detalhes tristes, os mais cruéis da nossa história. 

O coração cobarde salta, quer fugir do peito.

Ponta Delgada, 2008-10-31
Aníbal Raposo

domingo, outubro 26, 2008



ATREVIMENTO

No que ao manejar
Das palavras diz respeito
Tenho o atrevimento
Do feiticeiro aprendiz.

Não tenho escola,
Apenas sinto.

Depois,
Tento escrever como respiro.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2008-10-26

sexta-feira, outubro 24, 2008



DE COMO CANTAR O QUE EM TI AMO

Quero dizer o meu amor por ti
Com aquela entoação viva e perfeita
De quem ao declamar sente o poema.

Cantar a nossa doce relação,
Como se ela fosse o mais inspirado tema
Que alguma vez sonhei e produzi.

Pintar a tela enorme, nossa vida,
No cavalete instável das certezas 
Com as cores harmoniosas dos teus gestos.

Esculpir a imagem bela do nosso entendimento
Com a delicadeza daquele que trabalha
A golpes de cinzel a pedra dura.

Ponta Delgada, 2008-10-24
Aníbal Raposo

domingo, outubro 12, 2008



PARA QUÊ OS OLHOS TRISTES

Para quê os olhos tristes ?
Porque não ris para mim ?
As amarguras da vida
Nunca se curam assim...
Para quê os olhos tristes ?
Porque não ris para mim ?

Pés no chão! Cabeça erguida!
Para o bom e pró ruim
Que as amarguras da vida
Sempre se vencem assim
Pés no chão! Cabeça erguida!
Dá um risinho p' ra mim...


1982
Aníbal Raposo

sexta-feira, outubro 10, 2008



UMA IMAGEM NO ESPELHO

Quem pensas tu que és,
Ridícula imagem reflectida no espelho?

Ris-te?

Porque tentas tu, sem sucesso
Fazer-te passar por mim?

Eu sou livre e voo sempre que posso. 
Sinto o vento na cara
Quando parto para essas viagens solitárias
Por cima dos telhados da cidade.

Viajo numa envolvente de quatro dimensões:
As três do costume mais a da poesia,
E tenho todas as palavras e letras para comprar
No grande hipermercado das emoções à solta.
 
Tu porém, indigente imagem, 
Estás refém, das letras: x e y
As que definem os dois eixos do plano espelhado
Que é, em simultâneo,
Tua morada e cárcere.

Fazes-me lembrar um velho holandês
Que usa roupas esquisitas
E um grande brinco na orelha,
Num esforço inglório para sobressair
Na extrema monotonia
Da infindável paisagem plana,
Olhar de toda a sua vida.

Pobre de ti, reclusa imagem...
Ris-te apenas quando me acho graça
E choras só quando tiro a máscara
Ou me descontrolo.

Lisboa, 2008-10-09
Aníbal Raposo

quarta-feira, setembro 17, 2008



ANGÚSTIA DO CANTOR ANTES
DA ENTRADA EM PALCO

Lá fora a banda
Já toca a intro
Respira fundo…
Tu tens agora
Trinta segundos
Para seres jogado
Ao mundo.

Isso, respira...
Profundamente….
O que tens tu?
Sobram-te agora
Vinte segundos
Para seres lançado
À turba, nu.

Só dez segundos…
Vais ficar cego
Com a claridade.
Adrenalina
Segura as pernas
Chegou a hora
Da verdade.

Entras no palco
E aí os tens
Mesmo a teus pés.
Lembra-te bem:
Só tocas neles
Se fores igual
Àquilo que és.

Ponta Delgada, 2008-09-17
Aníbal Raposo

quinta-feira, julho 24, 2008


"Stepping Out" - 1978
Roy Lichtenstein.


DESPERTAR

Quando se abrem, lentamente,
as cortinas dos meus olhos
na boca de cena de cada madrugada,
ergo-me e afivelo a máscara
para a representação do dia.

É então que, por um momento,
mas só por um momento,
o teu riso luminoso, estrela da manhã,
me distancia da personagem do costume
e me faz nascer de novo em mim.

Ponta Delgada, 2008-07-24
Aníbal Raposo

terça-feira, julho 22, 2008


Nascer do sol - Claude Monet

HOJE

Hoje é dia de avivar as memórias duma jornada imperfeita;
Hoje é dia de apreciar o belo entrançado das cicatrizes da vida;
Hoje é dia de não mercadejar emoções por trinta dinheiros;
Hoje é dia de pensar nos rebentos das árvores que plantei;
Hoje é dia de sonhar que desses rebentos brotarão flores;
Hoje é dia de presumir que dessas flores nascerão os frutos da eternidade;
Hoje é dia de ser humilde e de reconhecer os meus erros;
Hoje é dia de manter a cabeça erguida e de olhar as pupilas do futuro;
Hoje é dia de respeitar os compromissos assumidos;
Hoje é dia de amar quem verdadeiramente me ama;
Hoje é dia de saber que a perfeição é sempre uma busca;
Hoje é dia de ser feliz e de transmitir alegria a toda a gente;
Hoje é dia...

Ponta Delgada, 2008-07-22
Aníbal Raposo

terça-feira, julho 31, 2007


Salvador Dali

ORIGENS

Ao mundo vim em ambiente adverso
Pobre nasci, no meio da rudez
Mas se faltou fortuna no meu berço
Sobrou ternura, paz e honradez.

Ponta Delgada, 2007-07-31
Aníbal Raposo

sexta-feira, fevereiro 16, 2007



AVE MARIA

Ave Maria, de amor
Cheia de graça e poderes
Contigo mora o Senhor
Sois bendita entre as mulheres

Tu és o nosso reduto
A nossa divina luz
Abençoado é o fruto
Do vosso ventre, Jesus.

Santa Maria, sois mãe
(Alívio das nossas dores)
De Deus e nossa também
Rogai por nós pecadores.

Rogai por nós, oh Senhora
Rainha Santa da igreja
Agora e também na hora
Da nossa morte, assim seja.


I.R. Aníbal Raposo
2007-02-08

sexta-feira, setembro 29, 2006



DANÇA COMIGO

Dança comigo, morena
Leveza de pena
Esta dança breve
Dança e rodopia
Solta-me a alegria
De quem nada deve

Acende-me, a cara, o rosto
Os lábios de mosto
Riso de marfim
Requebra a cintura
Que és a criatura
Nascida pr’a mim

Coro:

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu


Ao som da concertina
(Cinturinha fina
Pele de cetim)
Dança meu amor
Não sei doutra flor
Que bem dance assim

Dança com fantasia
No fim deste dia
Que se vai embora
No passo da vida
Dancemos querida
Que é a nossa hora

Aníbal Raposo
Lisboa
2006-09-26


CANTIGA DOS CANTOS

Canto do meu quarto, casa da fajã
Cantigas de melro - acorda é manhã
Cantos de trabalho são cantos que gravo
No canto da memória há trabalho escravo

Minha avó cantava à luz da candeia
Dez cantos ao luso são uma epopeia
Num triste cantar canta o indigente
A cantar de galo anda muita gente

P’lo canto do olho vi luzir adagas
Com cantos te canto e com mal me pagas
Leves são cantigas que as leva o vento
Canta e ri comigo que é sempre momento

Há cantos de enganos, cantares de bandido
Cantos de sereia, já fui iludido
Com cantos guerreiros eu brandi a espada
No canto da vida, numa encruzilhada

Num doce cantar o meu mal espanto
Com cantos e rezas que benzo o quebranto
O da meia-noite dizem ser excelente
Se é depois das dez já me põe doente

Com mavioso canto a moral me pregas
Sabes bem cantar mas já não me alegras
Foi com cantochão que vendeste os céus
No canto do cisne já te disse adeus.

Aníbal Raposo
Aeroporto de Ponta Delgada
2006-09-25

quinta-feira, março 02, 2006



NADA A DECLARAR

Após longa viagem, fatigado
Tendo mesmo acabado de aterrar,
Fui eu, portas saindo, perguntado
Se não havia nada a declarar.


Declaro um grande amor feito em pedaços
Arrastado pelas ruas da amargura
Que quer sobreviver a mil cansaços
E a muitas ilusões contranatura

Declaro que, apesar de alguns desmandos,
Não sou homem de viver quentes paixões.
Confesso não ser dado a contrabandos
Nem saber traficar com emoções.

Declaro que vivi, serenamente.
Que amei da forma que sabia amar.
Confesso que falhei, redondamente,
No que era o tempo e a forma de o expressar.

Declaro um grande amor, de mil matizes,
À minha companheira, às minhas filhas,
E não sobreviver sem as raízes
Que me prendem ao chão destas nove ilhas.

Declaro, se isso faz algum sentido,
E sem qu’rer implorar pena de mim,
Que voei meia viagem distraído
E não cuidei das flores do meu jardim.

Mais declaro que trago na bagagem
O desgaste natural que o tempo faz.
Confesso que no fim desta viagem
Só queria um doce abraço e alguma paz.

Declaro que amo a paz, mas vou à guerra,
E quero declarar, por ser verdade,
Que o grande amor que tenho a esta terra
É o mesmo que dedico à liberdade.

Por tudo aquilo que há de mais sagrado
Apesar de parecer diferentemente,
Tendo eu o vil ferrete de culpado
Declaro, mesmo assim, ser inocente.

E quanto ao que me estava a perguntar,
Declaro nada ter a declarar.


Aníbal Raposo
2003-06-11

sábado, outubro 29, 2005



FASES DA LUA

Lua nova escuridão
Faz maré de caranguejos
Ninguém sequer adivinha
Que já te cobri de beijos

Que já te cobri de beijos
Ninguém sabe não senhor
Que ao escuro da lua nova
Eu já tive o teu amor

Inda era lua nova
Inda o amor estava quente
Quando ele amadureceu
Já era quarto-crescente

Era já quarto-crescente
E o amor amadureceu
Querendo imitar a lua
Tinha fermento cresceu

Lua cheia, lua cheia
Redonda nem pão de milho
Quem diria lua cheia
Que à tua luz fiz um filho

Que à tua luz fiz um filho
Confesso nunca pensei
Que a essa luz prateada
Pudesse amar como amei

Pudesse amar como amei
(Durou o amor bastante...)
Quando a coisa arrefeceu
Já era quarto-minguante

Era já quarto-minguante
Quando morreu, foi à cova
Mas já tenho novo amor
Que amanha é lua nova


Aníbal Raposo

segunda-feira, outubro 03, 2005



A UM BURRO CIBERNÉTICO
DA COSTA DA CAPARICA
QUE RESPONDE AO NOME
DE TOTAKI TOTAPOLOS


Ele há coisas que acontecem
Que deixam um homem pasmado
Agora até aparecem
Burros em frente ao teclado

Rapazes isto promete
Já ouvi aqui um zurro
Um asno na internet
Não passa dum ciberburro

As árvores genealógicas
De burros faço-as também
“Totó” da parte do pai
“Polos” é mister da mãe

A mãe está desculpada
Nunca me fez mal nenhum
É que uma besta quadrada
Pode parir qualquer um

Isto aqui não há marosca
É como digo maralha
Este burro está com a mosca
Ou então cheira-lhe a palha

Não te vás que é uma perda
És uma besta esforçada
Deve ser de carregar m...
Da Costa ao centro de Almada

1997-02-17
Aníbal Raposo

quarta-feira, setembro 21, 2005


Portrait of Dora Maar
Pablo Picasso (1881-1973/Spanish)
Oil on Canvas

ESTÁTUA DE FOGO

Tu és assim como um luzeiro
Que ilumina a minha noite por inteiro
A nascente d' água da minha fajã
O meu sonho, a minha estrela da manhã

És o araçá mais saboroso
És a ponta de saudade que dá gozo
Como um lenço que me acena à despedida
És o sal com que eu tempero a minha vida

Refrão

Olha p'ra mim! Sou uma estátua a arder
Deitaste-me fogo, vem-me arrefecer
Eu quero voar bem alto, em liberdade
Quem semeia o vento colhe a tempestade

Tu és o mar do meu desejo
És assim o monte do meu Alentejo
Como um sol que morre em sangue no Escalvado
Tens o som duma guitarra no meu fado

Abril de 1995

segunda-feira, setembro 19, 2005



A MÁSCARA

Dêem-nos tempo para pormos a máscara
Perdidos que estamos nas esquinas do medo
Dêem-nos um barco, um leme e uma bússola
E partiremos de manhã cedo

Temos um sol quente
Um céu azul forte
Vamos no mar largo
Abrimos o pano todo ao vento norte

Queremos um quarto forrado de espelhos
Para mirarmos a nossa nudez
Corremos o risco de chegarmos a velhos
Sem nunca sabermos da loucura a lucidez

Sabemos do beijo que roça a carícia
Sabemos da caixa que guarda os segredos
Sabemos da vida, fingida, a malícia
Tocamos na lua com a ponta dos dedos


Maré de Agosto de 1994

sábado, setembro 17, 2005



AMANHECER NA FAJÃ

Que diremos nós os dois quando chegar a madrugada
E as nossas mãos-palavras se quedarem esclarecidas?
Dançarão os nossos corpos como peixes na corrente?
Ensaiarão voos picados de garajaus famintos?

Que diremos a seguir, quando passar a tempestade
E navegarmos tranquilamente no mar de azeite
Dos sentidos? Seremos como milhafres a voar
Com olhos verde-riso que só o nosso amor inventa?

Que caminhos-prata neste mar de breu rompeu a lua?
Quantas carícias trocaremos ao canto dos cagarros?
Que subtis destilados soltarão línguas tão domésticas?
A nossa pequenez na contemplação destes luzeiros...

Bendito seja Deus por me ter vivo
E por me dar a benção de amanhecer contigo na fajã...

Lisboa
2005-09-12

quinta-feira, setembro 15, 2005


Mulher com bandolim
Picasso

DUAS MULHERES

A primeira
Para me tanger em vida nova;

A segunda
Para voar até à cova.

Lisboa
2005-09-14

sexta-feira, julho 22, 2005



TEMPO AMARGO

Tempo amargo em que as sereias
Já não cantam em nosso mar
Foram ter a outras paragens
Onde encantam no cantar
Verão, estio, tão seco
Dor pungente, tão sentida
Quando entrámos neste beco
Sem saída

Bem te sinto, tão distante
Com os teus passos a meu lado
Há um acorde dissonante
Que entrou no nosso fado
Quem me dá, que bem preciso,
Sugestões, conselhos sábios
Para rasgar só um sorriso
Nos teus lábios

Porque afundas em cuidados?
Onde está tua alegria?
Depois de dias passados
Amanhece um novo dia
Se o nosso amor tem cansaços
Não temas pelo seu futuro
Nos meus braços
Tens sempre um
Porto seguro

Aníbal Raposo
Fevereiro de 2002

sexta-feira, junho 03, 2005


Don Quixote
Picasso


DESENCONTROS

Cheguei do mar da esperança, vim nas velas da saudade
Já passou a tempestade, venho em bonança
Venho avivar o lume que a chama esmorecia
Trazer-te as acendalhas da poesia

Há silêncios que parecem belas peças de oratória
Estão vincados na memória, nunca se esquecem
Até há desencontros que, sem parecerem nada,
São como mil abraços na chegada

Adeus ! Já me vou embora ...
Levo um beijo em cada face
E o desejo que o tempo passe sem demora.
Basta fechar os olhos e tenho a tua imagem.
É a forma de levar-te na viagem ...

Aníbal Raposo

sexta-feira, abril 22, 2005




TALVEZ

Talvez um riso teu, um gesto sábio
Pudesse ser o sol do meu conforto
Talvez tu queiras ser o astrolábio
Que guia a minha nau para bom porto

Talvez no mar irado das tormentas
Talvez no batalhar do dia-a-dia
Tu sejas o planar, com asas lentas
Da garça que adivinha a calmaria

Talvez o melro poise na varanda
Talvez o seu cantar me lance pistas
Talvez eu chegue ao fim desta demanda
Talvez sejas real, talvez existas


Aníbal Raposo
1999



A TUA CHEGADA

Vieste o outro dia
Claro que vieste
Com rumo a Nordeste
E muita alegria
E diz quem te viu
Que vinhas com calma
Para ouvir minh’alma
Que à tua se abriu

P’ra meu grande espanto
Ouviste calada
E p’la madrugada
Já te amava tanto
De manhã, no alvor
E sem embaraço
Selámos num abraço
Promessas de amor

Junto de um carvalho
De sombra cerrada
Abriu-se uma estrada
Do que era um atalho
E então num desejo
Quente de mil sóis
Trocámos os dois
O primeiro beijo

Depois junto ao mar
Entre coisas belas
Contámos estrelas
De noite ao luar
E ouvi tua voz
E também cantava
E a lua brilhava
Somente p’ra nós

No pino do verão
Cruzámos os mares
E ouvimos cantares
À noite, ao serão
Depois do sol-pôr
Dormimos cansados
Corpos fatigados
De brigas de amor

E quis o destino
Que tu me encontrasses
E me transformasses
De novo em menino
Por minha querida
Agora te chamo
E sei que te amo
Mais que à própria vida.


Aníbal Raposo

Lisboa
2003-10-14

quarta-feira, abril 20, 2005




NASCER DE NOVO

Por me teres feito, de novo, correr o sangue nas veias
Pelo baralhar completo das minhas ideias
Pela boleia tranquila p'ró sétimo céu
Faço-te a devida vénia tiro-te o chapéu

Pela frechada certeira que me deu Cupido
Pela ausência da cantiga dita do bandido
No fundo dos teus olhos claros é que me revejo
No meio dos meus sonhos loucos é que te desejo

Oh meu bem, bem sei
Oh meu bem, sei lá
Oh meu bem, ninguém
Sabe o que será

Aníbal Raposo
1990

segunda-feira, março 28, 2005




ENGANOS

Que sabes tu de mim, amor que o és,
Se na longa jornada que fizemos
Nunca abriste as narinas ao perfume
Das palavras que te eram dirigidas?

Agora, recordas com ternura
As outras, deixadas solitárias
Na caixa do correio imaginária
Duma joaninha que inventei em ti.


Lisboa
2003-07-02

terça-feira, fevereiro 22, 2005



CANTIGA DOS AÇORES

Santa Maria me valha!
São Miguel me dê conforto!
Como é que eu me fui perder
Dentro de Vila do Porto?
Às vezes a vida dá,
Sem aparente razão,
Mais voltas que um balhador
No Balho da Povoação.

À Santa Cruz me encomendo!
Que foi mulher Graciosa
A Terceira que eu amei
Tão pura como formosa.
Tinha assim uns Olhos Negros
Mas era um pouco Tirana
Hoje morro de Saudade
Entre Maria vai Ana ...

São Jorge não leve a mal!
Não passou de um namorico,
Tão breve como quem vai
Do Faial até ao Pico.
Não sei se lhe mande Flores
Ou se estas farão estorvo.
Este caso está tão negro,
Negro como asa de Corvo

Aníbal Raposo

sexta-feira, fevereiro 18, 2005




BRINDE À AMIZADE

Minha amiga, eu tenho uma cantiga p'ra te dar
Agora que já se acalmou o mar
E a chuva cai lá fora de mansinho
Ergamos uma taça de bom vinho
Que esta fogueira é boa e vai durar

Minha amiga, aceita esta amizade que é discreta
E desculpa os devaneios de um poeta
(Que por sistema é sempre um fingidor)
Acabo de passar além da dor
E de fechar meus sonhos na gaveta

1991
Aníbal Raposo

domingo, fevereiro 06, 2005


O sonho - Pablo Picasso

TEMA PARA MARGARIDA

Ai quem me dera partir
Na canoa da esperança
Ir ancorar noutras praias
Noutros varadouros
Ai quem me dera voltar
A gozar dos tesouros
Da felicidade que eu tinha
Quando era criança

Ai quem me dera ser garça
E voar no canal
Só entre o Pico e o Faial
Me quedar dividida
Ai quem me dera mão firme
No leme da vida
Ai este amor que me mirra
Me mata e faz mal

Ai quem me dera de novo
As certezas e os medos
Ai quem me dera ter credos
E não ser indiferente
Ai o amor passa ao largo
Da vida da gente...
Ai já o tempo se escoa
Como areia entre os dedos...

Aníbal Raposo
(Tema escrito para a personagem que dá pelo nome de Margarida no romance "Mau tempo no canal" de Vitorino Nemésio).

quinta-feira, janeiro 13, 2005


Meditation on the harp
Salvador Dali


O QUE ME DÓI EM TI

O que me dói em ti
É esse teu desapego
Esta enorme distância
De estar tão perto

Dói-me tanto esta rotina diária...
Desde que o murro do despertador
Me tira do mundo dos sonhos
Até ao teu beijo gelado de boas-noites

Dói-me cada palavra que gastámos
Na incontornável usura do tempo
Fere-me sempre o muro da tua página de jornal
Na benção de cada domingo

Aníbal Raposo
2000

segunda-feira, janeiro 10, 2005




DESPEDIDA

Como voltar sem te perder nesta viagem?
Como fazer p’ra te matar dentro de mim?
De cada vez que apunhalo a tua imagem
Tinjo o meu peito com meu sangue carmesim...

Como afastar o que nasceu p’ra ser unido?
Como furtar dum céu azul o astro-rei?
Como expulsar a tua voz do meu ouvido?
Como dizer ao coração que cumpra a lei?

Como viver com teu fantasma em minha casa?
Como varrer da minha pele o teu odor?
Como enterrar-te, de uma vez, em campa rasa?
Como é que eu faço? Diz-me tu, oh meu amor...


Lisboa
2003-07-02



domingo, dezembro 19, 2004




EPITÁFIO

Aqui repousa das estrelas a poeira
Organizada agora e só doutra maneira...

Aníbal Raposo
2004

quarta-feira, dezembro 15, 2004





RAIO DE LUAR

Oh raiozinho de luar
Quem dera prender-te
Neste meu cantar

Doce toada de vento
Quebras as amarras
Do meu pensamento

Por ti, até ia ao Japão
Fonte de água clara
Minha inspiração

Mas como não posso ir
Deixo-te ao partir
Mas uma canção


Agosto 1991
Aníbal Raposo

segunda-feira, dezembro 13, 2004


Two eyed woman - Picasso

O MEU CANTO

Teu corpo meu amor
É terra sã
Tens lábios de romã

O teu riso de água fresca
Me sacia
O teu cheiro é maresia

É sempre de araçá
O meu desejo
A amora é dar-te um beijo

Teus olhos céu azul
Ardem de lume
De hortelã teu perfume

Teus seios são colinas
Tão suaves
O andar voo das aves

O teu jeito tão gentil
Flor de agapanto
Dá fruto neste canto


Aníbal Raposo
Janeiro de 2001

quarta-feira, dezembro 01, 2004


















MARÉ E NATIVIDADE

Maré:

O meu amor é como o mar
Revolto
Sendo tu o porto
Onde me abrigo após cada tormenta
Nessa lida, lenta
Que começa ao despertar

Às vezes
(Não te vou mentir...)
Eu sinto a febre de partir
Mas ao pensar em ti
Ao ver a luz do teu olhar
Não sei porquê
Acabo por ficar


Natividade:

O meu amor é um abandono
Tão suave como a luz do outono
Mistura de tristeza e de alegria
Tu és p' ra mim
Assim como o romper dum novo dia

Às vezes, só por um instante
Pressinto-te distante
Mas logo um beijo doce
Um breve abraço
Dois segredos
Afastam para longe esses meus medos


Aníbal Raposo
1988
Tema incluído na série da RTP "O barco e o sonho" de José Medeiros

sexta-feira, novembro 26, 2004





UM CASO DE POLÍCIA

Ai essa mulher tem
Um jeito que ninguém
Sabe explicar
Um riso tão fatal
Na boca sensual
Uma promessa no olhar
Faz-me saír do sério
Em sonhos de mistério
Perder-me em fantasias
E dar voltas na cama
Direi que ela programa
As minhas alegrias

Essa mulher não tem
Piedade de ninguém
Um olhar terno...
Ela é louca varrida
E faz da minha vida
Um doce inferno
Põe-me a correr mil perigos
Brigar com meus amigos
Calou-me o violão
É um poço de malícia
É um caso de polícia
Roubou-me o coração

Aníbal Raposo
1999-01-27
Lisboa

terça-feira, novembro 23, 2004




A MÁSCARA E O ROSTO

De tanto tempo trazer
A máscara ao rosto afivelada
Temo já não saber adaptar o rosto à máscara,
Agora que é preciso, urgente,
Subir de novo ao palco
E contrapor o riso alvo
Ao mortal negrume da tragédia.

Lisboa
2003-07-01

segunda-feira, novembro 22, 2004




FIM DE SÉCULO

Procuramos planícies de entendimento
Encontramos muralhas de distância

Já não sabemos rir
Os músculos da cara contraem-se
Em oportunos esgares a que chamamos riso

Perdemos toda a inocência
Compramos as amizades que interessam
Nos hipermercados das pequenas vaidades

Temos um mar chão
Deixaram-nos tão pobres que não o fruimos

Já não sabemos do cheiro
Do funcho, do incenso e da hortelã
Vendem-nos agora odores engarrafados a preços astronómicos
O burlão prospera...
O burlado é um tolo com status!

Como poderemos apreciar a singeleza das coisas
Se passamos por elas a duzentos à hora?

Não bebemos a natureza nos espaços abertos
Pagamos para utilizar passadeiras rolantes

Programamos os nossos momentos de amor
E a melodia dos nossos cânticos...

Aníbal Raposo
1999

domingo, novembro 21, 2004





NO DIA EM QUE O CÉU LHE CAÍU EM CIMA

No dia em que o céu se escaqueirou e lhe caiu em cima
Estava estranhamente calmo.

Conta quem viu que até gracejou
Enquanto assinava, como um sonâmbulo,
A sentença que ordenava o seu desterro.

Meia hora mais tarde,
A um canto da ilha,
Desceu às profundezas da cratera.

Contam os pássaros, suas almas gémeas
E guardiães das memórias da Lagoa Verde,
Que nem nos tempos em que a montanha explodiu em terríveis cataclismos
Se ouviram, como nessa hora, na Baía do Silêncio
Gritos mais roucos, soluços mais telúricos.
E que não consta que tenham caído vez alguma
Na superfície daquelas quietas águas
Lágrimas com tal teor de sal.

Contam, também,
Que, ali mesmo, jurou
Que, enquanto vivo fosse,
Nenhuma ave, a quem tivesse ferido por descuido,
Deixaria, alguma vez, por culpa sua,
De ter o ensejo de experimentar o golpe de asa
E de voar, em azul e plena liberdade.

Aníbal Raposo
2003-05-30





ÀS VEZES

Às vezes são palavras ao acaso e sem sentido
Que ferem como facas, como a ponta de um punhal
Às vezes solto a fera, vem à tona o animal
Que de tão feito à jaula já se esqueceu do rugido

Às vezes penso em ti e cai orvalho nos meus olhos
É quando a lua cheia deixa prata sobre o mar
Aí surge o poema, dá-me ganas de cantar
Mas cedo o meu navio fica preso nos escolhos

Às vezes dou por mim a gerir o dia-a-dia
Quando o cavalo louco quer voar campos afora
Às vezes, num repente, penso que é chegada a hora
Mas tal como nasceu morre o sonho em agonia...


Aníbal Raposo
1995

sábado, novembro 20, 2004


Wheat field with rising sun
Van Gogh

E DO VERBO

E do verbo, meu amor, nasceu o canto
Do sonho se destilou a poesia
E do riso tão feliz se fez um pranto
E duma flor macerada uma alegria

E da noite se fez a madrugada
E de um piscar de estrela um sol brilhante
E das coisas sem sentido, minha amada,
Nasceu a esperança, fugaz, por um instante

E duma lágrima vertida pelo canto
Dum olhar tão perturbado, tão tristonho
Nasceu, inesperado, um novo encanto,
A magia que renasce em cada sonho.

E da palavra simples a canção,
E da concha da fajã uma cidade,
E da raiz da vida uma ilusão,
E do jugo das cadeias, liberdade.


Aníbal Raposo
2003-06-21




AIGUILLE DU MIDI

Eis-me no tecto da Europa, tão perto do céu,
A olhar o Monte Branco em todo o seu esplendor.

No pequeno terraço,
Que o progresso transformou noutra Torre de Babel,
Só tenho ouvidos para a tua voz, ainda sonolenta,
E para o canto dos pássaros negros que me sobrevoam.

Depois, na descida, já a meio da montanha,
Sento-me por uma hora, sobre um enorme bloco de granito
Polido pela erosão de degelos seculares.

Olho de novo a montanha majestática,
Meto as mãos na neve,
Lambo uma lágrima furtiva,
Encho os pulmões de ar puro,
E preparo-me para uma nova caminhada,
Desta vez às profundezas do meu pequeno inferno.

Sinto que voltarei, um dia, meu amor,
Nem que seja em sonhos,
Para apreciar contigo
A beleza deste Monte Branco
E altivez desta Agulha do Sul.


Aníbal Raposo
2003-06-08






GENEBRA

Bebi a água límpida dos Alpes
Em quase todas as fontes
Da cidade livre de Genebra.
De cada vez que o fiz,
Pensei em ti, meu amor...

Junto à ponte Mont Blanc,
No lugar onde nasce o Ródano,
Havia um cisne branco
Lutando, desesperadamente,
Contra a força da corrente.
A vida era o rio,
Eu era o cisne branco.
Pensava em ti meu amor...

Na ilha de Rousseau,
Depois de um dia calmo e solarengo,
Fendeu-se de repente o céu
Espantando o estio com uma chuva morna.
Juro que o vento assobiou nos plátanos
Uma canção para ti, meu amor...

Na cidade velha, junto à Catedral de S. Pedro,
Havia namorados, rindo,
Sentados em esplanadas floridas,
À luz amarelada de tochas de querosene.
A cada gesto que faziam, uma lembrança...
De que me recordava eu, meu amor?


Aníbal Raposo
Genebra
2003-06-06




POEMA NA MADRUGADA


Tu e eu na mesma hélice
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...

Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.

Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.

Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.

Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.

Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.

Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.

Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea noturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.
Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.

Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fitz Carraldo.
O caldo
Da loucura...

Pura...
Heroína...
Menina...
Lua...


Aníbal Raposo
1997






POEMA PARA O MEU AMOR

Há voos de pássaros nos teus olhos castanhos de sereia
Batuques africanos no balouçar do teu corpo de gazela
Há frutos maduros na tumidez dos teus pequenos seios
E promessas loucas na humidade dos teus lábios entreabertos

Há como um tango argentino no desafio da tua cintura estreita
Há um doce encanto no urdir das tuas trancinhas de menina
Há estranhos sortilégios escondidos em tuas mãos de fada
E há rouxinóis magoados de cada vez que cantas

Há ondas de ternura neste teu jeito suave
E danças peruanas nas tuas ancas pela alba
Há calor dos trópicos no aperto dos teus braços tão sinceros
E uma paz das ilhas no teu macio leito de princesa

Há druidas, de novo, preparando filtros à sombra de carvalhos
E lagos privados onde nadam altivos cisnes brancos
E há luas de fajãs que riscam no mar trilhos de prata
E nascentes de água que brotam do teu riso cristalino.


Aníbal Raposo
Maré de Agosto de 2003
Dia 22
Santa Maria

quinta-feira, outubro 28, 2004



A PALAVRA ELEITA

Quem me dera ter a sageza de escolher,
de entre todas as palavras,
a palavra eleita.

A que,
por estranho sortilégio,
pudesse desenhar em traço firme,
como uma estrela que risca um céu de lua nova,
a evidência do meu amor por ti,

da forma mais singela, pura e escorreita.


Aníbal Raposo
Maio de 2001

Abertura





Servirá este blog como mais um veículo para dar a conhecer os meus textos, letras e poemas.
Aníbal Raposo