quinta-feira, janeiro 29, 2009

fiel amigo



EM DIA DE AMIGOS

Chorar a lágrima como se nossa fosse.
Repartir alegria quando a festa é rija.
Pôr dardos na língua quando a verdade o exija.
Mas cultivar o mel porque amizade é doce. 

Ponta Delgada, 2009-01-29
Aníbal Raposo
CONVITE PARA O LANÇAMENTO DO LIVRO
"ENTRE O SONO E O SONHO"

DATA: PRÓXIMO SÁBADO, DIA 31 DE JANEIRO, ÀS 20h00
LOCAL: ONDA JAZZ BAR, LISBOA


(CLICAR EM CIMA DA IMAGEM PARA VER TODA A INFORMAÇÃO)

quarta-feira, janeiro 28, 2009


HOMENAGEM AO PEDRO PAULETA

E assim foi, no passado dia 27 de Janeiro, a homenagem ao Pedro Pauleta promovida pelo Jornal "A bola". O Teatro Micaelense, repleto, contava na assistência com o Presidente do Governo Regional dos Açores, Secretário de Estado do Desporto, Eusébio, Carlos Queirós, Gilberto Madail entre outros. Não faltaram mensagens: de Jorge Sampaio a Felipão (vinda da Inglaterra). Pauleta, emocionado, a receber a bola de prata especial como melhor marcador de todos os tempos da selecção nacional. Fiquei muito feliz por me ter cabido fazer, com a minha banda, a segunda parte da gala de homenagem, transmitida para todo o arquipélago pela RTP e RDP Açores e, dessa forma, prestar a minha homenagem a um homem que cultiva a simplicidade dos grandes Homens, açoriano dos quatro costados e exemplo para a nossa juventude. Parabéns Pedro Pauleta! 

quarta-feira, janeiro 21, 2009



GESTÃO DE RECURSOS

RH? 
RH a PQP!

Eu sou gente,
e tenho nome, porra!

Você é que é
um RanHoso!

Usa óculos,
Dolce & Gabbana,
bem graduados,
e, no entanto,
não me vê!

Aníbal Raposo
Lisboa, 2009-01-21

Notas:
RH - Recurso Humano
PQP - Pata Que o Pôs

sábado, janeiro 17, 2009



DA NAVEGAÇÃO

Pela manhã
o meu corpo veleiro
mareou as suaves ondas
do teu, oceano de espanto.

Apostámos, os dois: barco e mar,
em simbiose perfeita,
na louca navegação do desejo.

E chegámos
cansados da viagem,
com os olhos brilhantes
em tons esmeralda,
a porto seguro. 

Aníbal Raposo
2009-01-17

quarta-feira, janeiro 14, 2009



PONTA DA MADRUGADA

Soou a sineta,
veio a salva e
o rancho parou
a lúgubre toada
das Ave Marias.

O irmão-mestre pediu
para nos sentarmos um pouco
a fim de refazermos forças
para a próxima etapa
da longa caminhada diária.
 
Os romeiros mais velhos
olharam para o mar
adivinhando o que se ia seguir...

Pouco depois, 
habituados à escuridão dos trilhos
calcorreados desde as quatro da manhã,
cerrávamos os olhos:

Era o sol a irromper,
majestoso como nunca,
no horizonte alaranjado
da Ponta da Madrugada.
 
Depois prosseguimos 
com as almas lavadas
pela beleza do momento
e pela força da nossa oração.

Ave Maria...

Aníbal Raposo
2009-01-14

segunda-feira, janeiro 12, 2009


Fotografia: Sónia Nicolau

FIM-DE-SEMANA

Deixei lá em cima
a dita civilização
e a neblina húmida
beijando os pés
das almas frias, gémeas
dum fim-de-semana
invernoso.

Na minha fajã
o sol insiste em acariciar-me a cara
e aproveita para me fazer ciúmes
beijando cada árvore que plantei.
Ao meio-dia os sargos,
de frescos, saltam na grelha.
Reaparecem os cheiros da infância
na coluna de fumo
que se ergue da fogueira
de canas, verticalmente,
na atmosfera calma. 

A primavera apressada
quer já fazer-se anunciar
nos abrolhos verdes
dos ramos das figueiras.
E há sempre, no cimo da falésia
o pio dos milhafres, aves irmãs
orgulhosas e libertas.

Esta é a oração mais piedosa
que me ocorre nesta hora:
bendigo o Criador do universo
por estar vivo,
aqui e agora.

Aníbal Raposo
2009-01-11

sexta-feira, janeiro 09, 2009



O PALCO DE NOVO

No próximo dia 27 de Janeiro vou pisar de novo o palco do Teatro Micaelense para cantar as minhas cantigas na segunda parte do espectáculo de homenagem a um conterrâneo que muito admiro: o Pedro Pauleta.

Grande jogador de futebol, açoriano de gema, gente simples, humilde e bem formada, com um coração do tamanho do mar que sempre vislumbrou. O maior marcador de todos os tempos da selecção do meu país.

O açor vai voar de novo! Parabéns Pauleta!

E, já agora, apareçam.

quarta-feira, janeiro 07, 2009



A DIMENSÃO DO FUTURO

Repara na pequena
semente da araucária
levada ao sabor do vento.  

A sua humildade
esconde a dimensão do futuro.

Ponta Delgada, 2009-01-09
Aníbal Raposo

segunda-feira, janeiro 05, 2009



O VELHO E A DANÇA


Havia um velhinho

Límpido cavalheiro

Muito bem formado

Mas muito lampeiro.

 

Num baile bispou

Donzela sem dolo

Deu-lhe por completo

A volta ao miolo.

 

Sentiu o idoso,

Como é bom de ver,

De novo a paixão

A querer renascer.

 

Com muito denodo

(Caso singular)

Dirigiu-se à moça

Resolveu dançar.

 

Convidou a dama

Para o salsifré.

Passos à deriva

De trôpego o pé.

 

Dançou, tanto, tanto

E com tanta gala

Que se estatelou

No meio da sala.

 

Muitos assistiram

À cena patética

Que coisa ridícula

Escaganifobética.

 

Não é uma fábula

O caso é autêntico

Aconteceu mesmo

Ao velhinho excêntrico.

 

Supremo ditado,

Verdades eternas:

Tu nunca dês passos

Se não tiveres pernas.

 

Aníbal Raposo

2009-01-05

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Esta foi a minha participação no 10.º jogo das 12 palavras do blog Eremitério. Obrigado ao Eremita pela diversão.

Palavras-desafio:

Autêntico; deriva; escaganifobética; fábula; límpido; novo; paixão; querer; renascer; salsifré; singular; supremo.

quarta-feira, dezembro 31, 2008


SETE


São sete as colinas

De Roma, a cidade.

Sete são as notas

Do som da amizade.

 

As cores são sete

Que o prisma refracta.

São sete os pecados

E um pastel de nata.

 

São arcanjos sete

De Deus impoluto.

E sete é também

O número absoluto.

 

As constelações

São o sete-estrelo.

O templo sagrado

Sete anos a tê-lo.


Sete são os Chacras 

Entéricos, um mito?

Seth, irmão de Osíris

Foi Deus do Egipto.


Sete são os selos

Do livro, proféticos.

Sete sacramentos.

Princípios Herméticos.


Sete belas artes

Na mesma procura.

Sete palmos tem

Cada sepultura.


Os deuses no Olimpo

Sete formas são.

Os planos são sete

Da evolução.


Sete as maravilhas:

O mundo se ufana.

Sete são os dias

De cada semana.


São sete as virtudes

São sete verdades?

Há muitos caminhos 

P'rás Sete Cidades.


Ponta Delgada, 2008-12-31
Aníbal Raposo

domingo, dezembro 28, 2008



O TÚNEL DE LUZ

(dedicado ao meu amigo Fernando Loura)

o quarto
a penumbra
a alva colcha
a cama.

o rosto magro
de cera
agonizando
sem medo.

a angústia
estampada
na cara
dos que esperam.

o respirar
pausado
forçado
sibilante

o silvo
forçado
descompassado
o respirar.

subitamente
a pausa...

o desfecho
agora?

de novo
o silvo
forçado
pausado
o respirar
telúrico
ofegante

outra vez
a espera...

a noite 
imensa
eterna
sem sono

a resignação
há muito
substituiu
o desespero.

a atenção
ao respirar
a pausa
de novo

agora?

segundos-horas...

por fim
o túnel
a luz
a paz.

a lágrima 
derradeira
salgada
lambida
na face
dos que
ficaram.

o início
continuação
da saudade.

Aníbal Raposo
2008-12-28


Alguns dos meus poemas vão ser editados, pela primeira vez, numa colectânea de novos poetas. O livro, que terá por título "Entre o sono e o sonho - Antologia de poetas contemporâneos", resulta dum concurso levado a efeito pelo Portal Lisboa e será publicado pela Chiado Editora.

Para mim, pouco habituado a estas coisas (sou mais ligado ao lançamento do disco), é uma alegria que quero compartilhar com os leitores do meu blog. Não faço ideia de quem serão os meus companheiros nesta aventura.

A apresentação da colectânea será feita, em princípio, no dia 31 de Janeiro, sábado, no bar Onda Jazz, em Lisboa.
 
Apareçam se tiverem tempo e se sentirem pachorrentos.

Vai ser sábado para mim.

terça-feira, dezembro 23, 2008



MEU AMOR

Eu sou o rio

O mar és tu

Eu morro
Para morar em ti

Lisboa, 2008-12-22
Aníbal Raposo

domingo, dezembro 21, 2008



CANTIGA DO SILÊNCIO


O silêncio é como uma agonia

Lentamente nos consome e faz sofrer

Meu amor, minha doce fantasia

Não me deixes de silêncio ensurdecer


Diz-me coisas banais, do dia-a-dia

Diz-me coisas nem que seja por dizer

Meu amor, minha doce fantasia

Não me deixes de silêncio ensurdecer


No silêncio pode haver certa poesia

A que a palavra dá corpo e faz crescer

Meu amor, minha doce fantasia

Não me deixes de silêncio ensurdecer


Aníbal Raposo

1982   

sexta-feira, dezembro 19, 2008



MENSAGEM DE NATAL

Meu menino Deus,

Cuida de todas as criaturas
que habitam este lindo planeta azul. 

Faz a humanidade dar um passo em frente:
Que haja Pão, Justiça e Paz
Para toda a gente.

Amen.


Um Santo Natal para todos os leitores amigos.

Ponta Delgada, 2008-12-19
Aníbal Raposo

quarta-feira, dezembro 03, 2008



CORRO RISCO

Corro.
Para quê?
Não derreteu Dali os relógios,
Tirânicos guardiães do tempo?
Para quê?
Se amanhã, quando renascer como árvore,
Vou abrigar os pássaros sempre que o sol cair.

Risco
Palavras,
Muitas, sem nexo.
Gostaria de riscar projectos de catedrais
Cujos pináculos rasgassem 
As nuvens que te ensombram a alma.  

Corro risco,
De não te saber amar
Com a fúria dum ciclone de Setembro.
Com a calma espelho d' água das lagoas.


Ponta Delgada, 2008-12-05
Aníbal Raposo

segunda-feira, dezembro 01, 2008



DA VAIDADE HUMANA
(VANITAS VANITATUM, ET OMNIA VANITAS)

É sempre junto ao mar,
perto da sua bela e incomensurável superfície azul,
que o meu turbulento espírito encontra a paz.

Só de o olhar descanso,
assim, como se entrasse de repente,
num reconfortante e sedativo sono.
Retempero-me logo do violento esforço que despendo
para resistir à sucção voraz do cavado vórtice
da vivência frenética, estúpida, sem sentido,
para onde a turba me impele, dia-a-dia.
 
É, também, no escuro da noite,
na pacatez do terraço da minha casa da fajã,
que mantenho o saudável hábito de sonhar acordado.

Às vezes, 
reclinado na minha cadeira de repouso, 
imagino que piloto a terra-nave,
e a levo a sondar cada luzeiro
que habita a imensidão dum céu de Agosto. 

Nessa minha viagem faz-de-conta,
perdido, algures, nos confins do universo, 
consigo ponderar, com fina exactidão, 
a minúscula, a ridícula pequenez
da futilidade humana. 

Ponta Delgada, 1 de Dezembro de 2008
Aníbal Raposo

domingo, novembro 23, 2008

Anunciando o Natal


Sem abrigo - Foto de Renato Fogal


ANUNCIANDO O NATAL


As tílias vestidas de luzes glaciares
anunciam a chegada do Natal
na cidade branca de Lisboa.

Vultos furtivos correm apressados,
numa baixa transida de frio,
procurando o aconchego do metro
e das casas-colmeias plantadas nos subúrbios.

O centro da urbe é um deserto.

Uma meta difícil a conquistar
no desgaste de cada madrugada.

No entanto, há quem resista à debandada geral.
Os
 deserdados da vida que, nRossio,
ajeitam cobertores em leitos de cartão canelado,
preparando mais uma noite ao relento
sob um céu faminto de estrelas.

Glória a Deus nas alturas!

E sonoros aplausos para a deslumbrante gruta azul,
do presépio profano e sem alma,

erigido aos pés da estátua
do Marquês de Pombal.

Lisboa, 2008-11-23
Aníbal Raposo

sábado, novembro 22, 2008



A FLECHA E A LIRA


Porque é que às vezes
As palavras que escrevemos
São como dardos envenenados?

Partem velozes do arco tenso da nossa memória
E cruzam os ares, sedentas na procura do alvo.
Por vezes e sem o desejarmos,
Atingem aqueles que amamos com tal brutalidade
Que ficamos banzados de espanto
Pelo forte impacto causado
E pela enorme violência dos estragos colaterais.

Depois agitam-se, frementes, soltam-se do alvo,
E fazem a viagem de regresso, em ricochete,
Ferindo-nos bem fundo, no peito.
Provocam golpes tão dolorosos
Que uivamos no chão transidos de dor.

Esconde o arco e a flecha velho poeta,
A hora é de tanger a lira.
Escuta a música do tempo...

Ponta Delgada, 2008-11-22
Aníbal Raposo


TARDE NA ROCHA


A tarde está calma e o mar chão.
Debaixo da latada
Interrompo a Saudade a meio
Para ouvir o concerto de um bando de garajaus que passa.
Depois, continuo o cortinado roxo...

Só Erika me entende.
À minha breve pausa
Brilham-lhe os olhos
Suaves lagos de azul.

Os meus amigos,
Com quem compartilho
A sábia espera do negro das uvas,
Estranham o parco interregno...

Aqui, neste lugar estranho
A verdadeira
União Europeia
Dos sentidos.

2002
Aníbal Raposo


FADO DA TAVERNA


Naquela rua estreitinha
Que do Arcanjo tomou
O nome, que perdurou,
Há uma casa onde o fado
É ouvido e acarinhado
(Naquela rua velhinha)

Todos os dias a eito
Até alta madrugada
Enquanto geme magoada
A guitarra portuguesa
Bebe-se vinho na mesa
Canta-se o fado a preceito

Ali mesmo ao pé do bar
Estão três pessoas à fala
Quase no centro da sala
Na mesa que é dos artistas
Três vozes, de três fadistas,
Que passo a enumerar:

A primeira é voz que ecoa
Com requebros alfacinhas
Canta cantigas velhinhas
Di-las com gosto e com raiva
Dá p'lo nome de Saraiva
E é natural de Lisboa

Já que vou entusiasmado
Vou nomear a segunda
Voz arrastada e profunda
Pelo peito o xaile traça
Piedade de sua graça
É corisca e canta o fado

Quando o Hilário cantava
Alta noite no Choupal
(E a sua voz de cristal
Toda a tricana escutava)
Já o Vitória entoava
Cantigas p'ró pessoal

Ao lado senta-se um mago
Da viola. Não tem par !
Quando se põe a tocar
Ataca acordes sem medo.
Peço desculpa ó Alfredo:
Quem toca assim não é Gago !

E por fim p'ra rematar
Que vai longa a cantoria
Como se fosse magia
Ouve-se um som que não engana
Sai das mãos do Zé Pracana
É uma guitarra a chorar

Naquela rua estreitinha
Que do Arcanjo tomou
O nome, que perdurou,
Há uma casa onde o fado
É ouvido e acarinhado
(Naquela rua velhinha)

Aníbal Raposo
1990-08-10


REMA


Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema lanchinha
Pró alto mar

Rema que rema
No mar irado
Gostar de ti
É um triste fado

Rema que rema
Na calmaria
Senhor S. Pedro
És o meu guia


Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema lanchinha
Pró alto mar


Rema que rema
Pelo mar fora
Segura o leme
Nossa Senhora

Rema que rema
Pró areal
Se te não vejo
Passo bem mal


Aníbal Raposo
Agosto 2000

sexta-feira, novembro 14, 2008


O homem do leme - escultura de Américo Gomes

DA VIDA E DO RUMO

No que concerne
À atitude
Assumo a postura
Do fio-de-prumo.

Rectilínea,
A probidade do espírito.
A esquadro a traço.

O círculo perfeito, destino
À verdade e à lealdade,
Virtudes irmãs
Que risco a compasso.

E a proa da barca
Da vida e da morte
Apontada a norte
Por ser o meu rumo.

Relva, 2008-11-17
Aníbal Raposo

quarta-feira, novembro 12, 2008


À HORA EM QUE OS POETAS SE INQUIETAM


Há momentos tão feitos à dor

Que soltam sentimentos, que os despertam.

Eu, por mim, sou dado a males de amor

À hora em que os poetas se inquietam.

 

Na hora em que os meus versos nascem soltos

Há um pôr-do-sol tão roxo que seduz.

As formas em recorte contra-luz

E os mares do meu peito tão revoltos.

Um bando de estorninhos, nuvem preta.

A dança em rodopio dos morcegos.

Há um ferver do sangue do poeta

Que entrou na hora dos desassossegos.


Rocha da Relva, 2002

Aníbal Raposo

terça-feira, novembro 11, 2008



A MARCHA

Porque é que ao caboucar o poema
Me vêm sempre à lembrança
Imagens inesperadas
Que me tolhem a fluidez do verso?

Porque é que a razão e o sonho
Em mim sempre se atropelam
Na estúpida ansiedade
De quererem ser as primeiras a cortar a meta?

Porque é que vislumbro sempre vis cumplicidades,
Na persistência das sombras que me agridem,
Me servem penosas insónias nocturnas
E me encrespam o riso?

Às vezes penso que esses fantasmas assim agem
Porque ouviram, de segura fonte,
Que o riso é o som da água que corre
Na ribeira do pensamento cristalino,
Das consciências livres.

Ouviram e sabem que a felicidade
Flutua na turbulenta torrente da utopia,
Que é o pão e o vinho das almas libertas,
De preconceitos e máscaras.

Das almas que ousam romper
As grilhetas que guardam cativas
As tristes personagens do grande teatro de marionetas
Em que transformaram as nossas vidas.

Por isso nos querem,
Marchando:
Todos sem tempo,
E todos a tempo.

E nós lá vamos
Marcando passo
Com as botas da tropa
E também com outras
De biqueira de aço.

Um! Dois! Três!
Esquerdo! Direito!
Perfeito!

No tempo certo,
Marcando passo.
Tudo a preceito,
Tudo proveito,
Tudo a compasso. 

Ponta Delgada, 2008-11-11
Aníbal Raposo

sexta-feira, outubro 31, 2008



COLECCIONANDO ESTRELAS

Em vez de andares a vasculhar
Por entre as teias do sótão do ressentimento,
Aproveita o dia...

Deixa este sol de Outono
Acariciar-te a cara e diz:
Estou vivo!

Põe-te a escrever as canções que faltam
No teu sonhado álbum branco:
O luminoso.

Tu sabes bem que é na lua nova
O tempo certo para se coleccionar estrelas.

Põe as palavras de amor
A vibrar na frequência exacta,
Como se tentasses afiná-las
Pelo sagrado diapasão do universo.

E lembra-te que o poema mais sublime
Tem o tom do que é e faz sentido.

Ponta Delgada 2008-10-31
Aníbal Raposo
Dali - A persistência da memória

VENTOS DA MEMÓRIA

E de repente surgem, nos ventos da memória,
Vertendo os rios do meu olhar fora do leito,
Detalhes tristes, os mais cruéis da nossa história. 

O coração cobarde salta, quer fugir do peito.

Ponta Delgada, 2008-10-31
Aníbal Raposo

domingo, outubro 26, 2008



ATREVIMENTO

No que ao manejar
Das palavras diz respeito
Tenho o atrevimento
Do feiticeiro aprendiz.

Não tenho escola,
Apenas sinto.

Depois,
Tento escrever como respiro.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2008-10-26

sexta-feira, outubro 24, 2008



DE COMO CANTAR O QUE EM TI AMO

Quero dizer o meu amor por ti
Com aquela entoação viva e perfeita
De quem ao declamar sente o poema.

Cantar a nossa doce relação,
Como se ela fosse o mais inspirado tema
Que alguma vez sonhei e produzi.

Pintar a tela enorme, nossa vida,
No cavalete instável das certezas 
Com as cores harmoniosas dos teus gestos.

Esculpir a imagem bela do nosso entendimento
Com a delicadeza daquele que trabalha
A golpes de cinzel a pedra dura.

Ponta Delgada, 2008-10-24
Aníbal Raposo

domingo, outubro 12, 2008



PARA QUÊ OS OLHOS TRISTES

Para quê os olhos tristes ?
Porque não ris para mim ?
As amarguras da vida
Nunca se curam assim...
Para quê os olhos tristes ?
Porque não ris para mim ?

Pés no chão! Cabeça erguida!
Para o bom e pró ruim
Que as amarguras da vida
Sempre se vencem assim
Pés no chão! Cabeça erguida!
Dá um risinho p' ra mim...


1982
Aníbal Raposo

sexta-feira, outubro 10, 2008



UMA IMAGEM NO ESPELHO

Quem pensas tu que és,
Ridícula imagem reflectida no espelho?

Ris-te?

Porque tentas tu, sem sucesso
Fazer-te passar por mim?

Eu sou livre e voo sempre que posso. 
Sinto o vento na cara
Quando parto para essas viagens solitárias
Por cima dos telhados da cidade.

Viajo numa envolvente de quatro dimensões:
As três do costume mais a da poesia,
E tenho todas as palavras e letras para comprar
No grande hipermercado das emoções à solta.
 
Tu porém, indigente imagem, 
Estás refém, das letras: x e y
As que definem os dois eixos do plano espelhado
Que é, em simultâneo,
Tua morada e cárcere.

Fazes-me lembrar um velho holandês
Que usa roupas esquisitas
E um grande brinco na orelha,
Num esforço inglório para sobressair
Na extrema monotonia
Da infindável paisagem plana,
Olhar de toda a sua vida.

Pobre de ti, reclusa imagem...
Ris-te apenas quando me acho graça
E choras só quando tiro a máscara
Ou me descontrolo.

Lisboa, 2008-10-09
Aníbal Raposo

quarta-feira, setembro 17, 2008



ANGÚSTIA DO CANTOR ANTES
DA ENTRADA EM PALCO

Lá fora a banda
Já toca a intro
Respira fundo…
Tu tens agora
Trinta segundos
Para seres jogado
Ao mundo.

Isso, respira...
Profundamente….
O que tens tu?
Sobram-te agora
Vinte segundos
Para seres lançado
À turba, nu.

Só dez segundos…
Vais ficar cego
Com a claridade.
Adrenalina
Segura as pernas
Chegou a hora
Da verdade.

Entras no palco
E aí os tens
Mesmo a teus pés.
Lembra-te bem:
Só tocas neles
Se fores igual
Àquilo que és.

Ponta Delgada, 2008-09-17
Aníbal Raposo

quinta-feira, julho 24, 2008


"Stepping Out" - 1978
Roy Lichtenstein.


DESPERTAR

Quando se abrem, lentamente,
as cortinas dos meus olhos
na boca de cena de cada madrugada,
ergo-me e afivelo a máscara
para a representação do dia.

É então que, por um momento,
mas só por um momento,
o teu riso luminoso, estrela da manhã,
me distancia da personagem do costume
e me faz nascer de novo em mim.

Ponta Delgada, 2008-07-24
Aníbal Raposo

terça-feira, julho 22, 2008


Nascer do sol - Claude Monet

HOJE

Hoje é dia de avivar as memórias duma jornada imperfeita;
Hoje é dia de apreciar o belo entrançado das cicatrizes da vida;
Hoje é dia de não mercadejar emoções por trinta dinheiros;
Hoje é dia de pensar nos rebentos das árvores que plantei;
Hoje é dia de sonhar que desses rebentos brotarão flores;
Hoje é dia de presumir que dessas flores nascerão os frutos da eternidade;
Hoje é dia de ser humilde e de reconhecer os meus erros;
Hoje é dia de manter a cabeça erguida e de olhar as pupilas do futuro;
Hoje é dia de respeitar os compromissos assumidos;
Hoje é dia de amar quem verdadeiramente me ama;
Hoje é dia de saber que a perfeição é sempre uma busca;
Hoje é dia de ser feliz e de transmitir alegria a toda a gente;
Hoje é dia...

Ponta Delgada, 2008-07-22
Aníbal Raposo

terça-feira, julho 31, 2007


Salvador Dali

ORIGENS

Ao mundo vim em ambiente adverso
Pobre nasci, no meio da rudez
Mas se faltou fortuna no meu berço
Sobrou ternura, paz e honradez.

Ponta Delgada, 2007-07-31
Aníbal Raposo

sexta-feira, fevereiro 16, 2007



AVE MARIA

Ave Maria, de amor
Cheia de graça e poderes
Contigo mora o Senhor
Sois bendita entre as mulheres

Tu és o nosso reduto
A nossa divina luz
Abençoado é o fruto
Do vosso ventre, Jesus.

Santa Maria, sois mãe
(Alívio das nossas dores)
De Deus e nossa também
Rogai por nós pecadores.

Rogai por nós, oh Senhora
Rainha Santa da igreja
Agora e também na hora
Da nossa morte, assim seja.


I.R. Aníbal Raposo
2007-02-08

sexta-feira, setembro 29, 2006



DANÇA COMIGO

Dança comigo, morena
Leveza de pena
Esta dança breve
Dança e rodopia
Solta-me a alegria
De quem nada deve

Acende-me, a cara, o rosto
Os lábios de mosto
Riso de marfim
Requebra a cintura
Que és a criatura
Nascida pr’a mim

Coro:

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu


Ao som da concertina
(Cinturinha fina
Pele de cetim)
Dança meu amor
Não sei doutra flor
Que bem dance assim

Dança com fantasia
No fim deste dia
Que se vai embora
No passo da vida
Dancemos querida
Que é a nossa hora

Aníbal Raposo
Lisboa
2006-09-26


CANTIGA DOS CANTOS

Canto do meu quarto, casa da fajã
Cantigas de melro - acorda é manhã
Cantos de trabalho são cantos que gravo
No canto da memória há trabalho escravo

Minha avó cantava à luz da candeia
Dez cantos ao luso são uma epopeia
Num triste cantar canta o indigente
A cantar de galo anda muita gente

P’lo canto do olho vi luzir adagas
Com cantos te canto e com mal me pagas
Leves são cantigas que as leva o vento
Canta e ri comigo que é sempre momento

Há cantos de enganos, cantares de bandido
Cantos de sereia, já fui iludido
Com cantos guerreiros eu brandi a espada
No canto da vida, numa encruzilhada

Num doce cantar o meu mal espanto
Com cantos e rezas que benzo o quebranto
O da meia-noite dizem ser excelente
Se é depois das dez já me põe doente

Com mavioso canto a moral me pregas
Sabes bem cantar mas já não me alegras
Foi com cantochão que vendeste os céus
No canto do cisne já te disse adeus.

Aníbal Raposo
Aeroporto de Ponta Delgada
2006-09-25

quinta-feira, março 02, 2006



NADA A DECLARAR

Após longa viagem, fatigado
Tendo mesmo acabado de aterrar,
Fui eu, portas saindo, perguntado
Se não havia nada a declarar.


Declaro um grande amor feito em pedaços
Arrastado pelas ruas da amargura
Que quer sobreviver a mil cansaços
E a muitas ilusões contranatura

Declaro que, apesar de alguns desmandos,
Não sou homem de viver quentes paixões.
Confesso não ser dado a contrabandos
Nem saber traficar com emoções.

Declaro que vivi, serenamente.
Que amei da forma que sabia amar.
Confesso que falhei, redondamente,
No que era o tempo e a forma de o expressar.

Declaro um grande amor, de mil matizes,
À minha companheira, às minhas filhas,
E não sobreviver sem as raízes
Que me prendem ao chão destas nove ilhas.

Declaro, se isso faz algum sentido,
E sem qu’rer implorar pena de mim,
Que voei meia viagem distraído
E não cuidei das flores do meu jardim.

Mais declaro que trago na bagagem
O desgaste natural que o tempo faz.
Confesso que no fim desta viagem
Só queria um doce abraço e alguma paz.

Declaro que amo a paz, mas vou à guerra,
E quero declarar, por ser verdade,
Que o grande amor que tenho a esta terra
É o mesmo que dedico à liberdade.

Por tudo aquilo que há de mais sagrado
Apesar de parecer diferentemente,
Tendo eu o vil ferrete de culpado
Declaro, mesmo assim, ser inocente.

E quanto ao que me estava a perguntar,
Declaro nada ter a declarar.


Aníbal Raposo
2003-06-11

sábado, outubro 29, 2005



FASES DA LUA

Lua nova escuridão
Faz maré de caranguejos
Ninguém sequer adivinha
Que já te cobri de beijos

Que já te cobri de beijos
Ninguém sabe não senhor
Que ao escuro da lua nova
Eu já tive o teu amor

Inda era lua nova
Inda o amor estava quente
Quando ele amadureceu
Já era quarto-crescente

Era já quarto-crescente
E o amor amadureceu
Querendo imitar a lua
Tinha fermento cresceu

Lua cheia, lua cheia
Redonda nem pão de milho
Quem diria lua cheia
Que à tua luz fiz um filho

Que à tua luz fiz um filho
Confesso nunca pensei
Que a essa luz prateada
Pudesse amar como amei

Pudesse amar como amei
(Durou o amor bastante...)
Quando a coisa arrefeceu
Já era quarto-minguante

Era já quarto-minguante
Quando morreu, foi à cova
Mas já tenho novo amor
Que amanha é lua nova


Aníbal Raposo

segunda-feira, outubro 03, 2005



A UM BURRO CIBERNÉTICO
DA COSTA DA CAPARICA
QUE RESPONDE AO NOME
DE TOTAKI TOTAPOLOS


Ele há coisas que acontecem
Que deixam um homem pasmado
Agora até aparecem
Burros em frente ao teclado

Rapazes isto promete
Já ouvi aqui um zurro
Um asno na internet
Não passa dum ciberburro

As árvores genealógicas
De burros faço-as também
“Totó” da parte do pai
“Polos” é mister da mãe

A mãe está desculpada
Nunca me fez mal nenhum
É que uma besta quadrada
Pode parir qualquer um

Isto aqui não há marosca
É como digo maralha
Este burro está com a mosca
Ou então cheira-lhe a palha

Não te vás que é uma perda
És uma besta esforçada
Deve ser de carregar m...
Da Costa ao centro de Almada

1997-02-17
Aníbal Raposo