quarta-feira, fevereiro 04, 2009




POEMA PARA A MULHER QUE PASSA


Podias ser Lianor

Pois que caminhas formosa

Pela verdura descalça.


E garota de Ipanema

Já que tu és coisa linda

Tão linda e cheia de graça.


Ou Rosinha dos limões

Fada de olhar feiticeiro

Com esse ar de chalaça.


Mas por não saber, princesa,

Que nome te baptizou

Prefiro dizer, riqueza,

Como o poeta cantou:

Passou uma delicadeza,

Uma mulher que ficou.


Ponta Delgada, 2009-02-05

Aníbal Raposo

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Recebi da minha querida amiga, a poetisa Betina Moraes, do blogue “Versos e idéias”, um convite para executar a seguinte tarefa: 

1 - agarrar o livro mais próximo; 
2 - abrir na página 161; 
3 - procurar a 6ª frase; 
4 - colocar a frase completa no blogue; 
5 - produzir um texto com a frase; 
6 - repassar a "tarefa" para 5 pessoas.

O livro que estava mais próximo era "Ofício cantante" de Herberto Helder, publicado em Janeiro de 2009 pela editora Assírio e Alvim – capa dura. A sexta frase do poema “Lugar último", que está na página 161, é a seguinte:

 “Passou uma delicadeza, uma mulher que ficou.”

O que saiu foi o poema acima. 

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Convido agora para a ciranda:

Paula Raposo do blogue "As minhas romãs"

http://romasdapaula.blogspot.com/

Manzas do blogue "Pensamentos"

http://pensamanzas.blogspot.com/

Eduardo Aleixo do blogue "À beira de água"

http://ealeixo.blogspot.com/

Ana Martins do blogue "Ave sem asas"

http://avesemasas.blogspot.com/

Conceição Bernardino do blogue "Amanhecer & palavras ousadas"

http://amanhecer-palavrasousadas.blogspot.com/


Sei que às vezes não é apetecível escrever estando condicionado a um texto. No entanto, espero que aceitem o desafio.

Beijos às meninas e abraços aos rapazes!

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Poema marginal




POEMA MARGINAL

Ainda não se enxerga a madrugada
quando o novo poema prepara seu iminente parto.

Fermenta na vesúvica erupção da mente,
para depois fluir em brasa, folha abaixo,
na inesperada torrente lávica das palavras.

Nasce às vezes sonoro, às vezes grave,
noutras por entre loucos, alarves e insanos risos.
Brota dos desconexos gestos báquicos,
irreflectidos, no escárnio cínico dos espelhos.

Acabou de mijar, sem pudor algum,
nas delicadas esquinas de convenções
secular e laboriosamente trabalhadas, 
escarnecendo, a mostrar os dentes podres,
do que é o simples e vulgar bom senso.
Não posso nem te quero segurar,
poema sem amarras.

Foi opção tua vir assim ao mundo:
livre e marginal.

Meu poema vivo,
poema sem-abrigo. 


Lisboa, 2009-02-02
Aníbal Raposo

domingo, fevereiro 01, 2009


DA BATIDA INESPERADA DO VENTO


Perdidos dentro dos nossos domésticos afazeres diários,

soporificamente embalados nos braços de Morfeu,

nem sempre nos damos conta

dos sinais premonitores da tormenta.

 

Então, quando ela surge, a sensação 

 é a de termos sido repentinamente abocanhados

pela ferocidade das mandíbulas dum tigre.

 

Perante a enorme sacudidela de vento

nas velas do navio da nossa vida,

sentimo-nos sem bússola, perdidos,

desesperados com a situação.

 

Nessa altura não estamos preparados para vislumbrar

a soberana oportunidade que nos é dada

para refazermos o rumo e retomarmos

o equilíbrio da nossa barca.

 

Mas, normalmente,

depois da grande e inesperada oscilação

navegamos mais adultos e mais sábios

na vasteza do mar-oceano da nossa existência.


Lisboa, 2009-02-01
Aníbal Raposo
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Esta é a minha participação no 11.º jogo das 12 palavras do blog Eremitério

Palavras-desafio:

Batida; dentro; Morfeu; navio; oceano; oscilação; sacudidela; situação;soberana/o; tigre; vasteza; vento.

Continuo a divertir-me. Obrigado Eremita.



DA ACENTUAÇÃO

Já não falo de não terem vincado
no nato volume, o i de minha graça,
que a língua lusa e, já agora, eu,
vá lá saber-se por que vão capricho,
fazemos questão que seja acentuado e grave. 

Dir-se-á que foi um lapso,
falta de atenção e de tempo disponível.

Pois bem, não quero lançar anátemas:
aceito e acredito que assim tivesse sido.

No entanto,
na minha provecta idade
tenho como dado e provado
que todas as acções obtêm sempre o tempo preciso
que estamos pré-dispostos a dispensar-lhes.

Acentuo, porém, com amizade
mas com acento muito grave,
não ter sido desenhado o tempo e o espaço
para conhecermos e distribuirmos abraços cúmplices
aos diversos pais e mães
da cópula feliz
que gerou a criança linda
que ontem nasceu
no Onda Jazz.

Lisboa 2009-02-01
Aníbal Raposo

quinta-feira, janeiro 29, 2009

fiel amigo



EM DIA DE AMIGOS

Chorar a lágrima como se nossa fosse.
Repartir alegria quando a festa é rija.
Pôr dardos na língua quando a verdade o exija.
Mas cultivar o mel porque amizade é doce. 

Ponta Delgada, 2009-01-29
Aníbal Raposo
CONVITE PARA O LANÇAMENTO DO LIVRO
"ENTRE O SONO E O SONHO"

DATA: PRÓXIMO SÁBADO, DIA 31 DE JANEIRO, ÀS 20h00
LOCAL: ONDA JAZZ BAR, LISBOA


(CLICAR EM CIMA DA IMAGEM PARA VER TODA A INFORMAÇÃO)

quarta-feira, janeiro 28, 2009


HOMENAGEM AO PEDRO PAULETA

E assim foi, no passado dia 27 de Janeiro, a homenagem ao Pedro Pauleta promovida pelo Jornal "A bola". O Teatro Micaelense, repleto, contava na assistência com o Presidente do Governo Regional dos Açores, Secretário de Estado do Desporto, Eusébio, Carlos Queirós, Gilberto Madail entre outros. Não faltaram mensagens: de Jorge Sampaio a Felipão (vinda da Inglaterra). Pauleta, emocionado, a receber a bola de prata especial como melhor marcador de todos os tempos da selecção nacional. Fiquei muito feliz por me ter cabido fazer, com a minha banda, a segunda parte da gala de homenagem, transmitida para todo o arquipélago pela RTP e RDP Açores e, dessa forma, prestar a minha homenagem a um homem que cultiva a simplicidade dos grandes Homens, açoriano dos quatro costados e exemplo para a nossa juventude. Parabéns Pedro Pauleta! 

quarta-feira, janeiro 21, 2009



GESTÃO DE RECURSOS

RH? 
RH a PQP!

Eu sou gente,
e tenho nome, porra!

Você é que é
um RanHoso!

Usa óculos,
Dolce & Gabbana,
bem graduados,
e, no entanto,
não me vê!

Aníbal Raposo
Lisboa, 2009-01-21

Notas:
RH - Recurso Humano
PQP - Pata Que o Pôs

sábado, janeiro 17, 2009



DA NAVEGAÇÃO

Pela manhã
o meu corpo veleiro
mareou as suaves ondas
do teu, oceano de espanto.

Apostámos, os dois: barco e mar,
em simbiose perfeita,
na louca navegação do desejo.

E chegámos
cansados da viagem,
com os olhos brilhantes
em tons esmeralda,
a porto seguro. 

Aníbal Raposo
2009-01-17

quarta-feira, janeiro 14, 2009



PONTA DA MADRUGADA

Soou a sineta,
veio a salva e
o rancho parou
a lúgubre toada
das Ave Marias.

O irmão-mestre pediu
para nos sentarmos um pouco
a fim de refazermos forças
para a próxima etapa
da longa caminhada diária.
 
Os romeiros mais velhos
olharam para o mar
adivinhando o que se ia seguir...

Pouco depois, 
habituados à escuridão dos trilhos
calcorreados desde as quatro da manhã,
cerrávamos os olhos:

Era o sol a irromper,
majestoso como nunca,
no horizonte alaranjado
da Ponta da Madrugada.
 
Depois prosseguimos 
com as almas lavadas
pela beleza do momento
e pela força da nossa oração.

Ave Maria...

Aníbal Raposo
2009-01-14

segunda-feira, janeiro 12, 2009


Fotografia: Sónia Nicolau

FIM-DE-SEMANA

Deixei lá em cima
a dita civilização
e a neblina húmida
beijando os pés
das almas frias, gémeas
dum fim-de-semana
invernoso.

Na minha fajã
o sol insiste em acariciar-me a cara
e aproveita para me fazer ciúmes
beijando cada árvore que plantei.
Ao meio-dia os sargos,
de frescos, saltam na grelha.
Reaparecem os cheiros da infância
na coluna de fumo
que se ergue da fogueira
de canas, verticalmente,
na atmosfera calma. 

A primavera apressada
quer já fazer-se anunciar
nos abrolhos verdes
dos ramos das figueiras.
E há sempre, no cimo da falésia
o pio dos milhafres, aves irmãs
orgulhosas e libertas.

Esta é a oração mais piedosa
que me ocorre nesta hora:
bendigo o Criador do universo
por estar vivo,
aqui e agora.

Aníbal Raposo
2009-01-11

sexta-feira, janeiro 09, 2009



O PALCO DE NOVO

No próximo dia 27 de Janeiro vou pisar de novo o palco do Teatro Micaelense para cantar as minhas cantigas na segunda parte do espectáculo de homenagem a um conterrâneo que muito admiro: o Pedro Pauleta.

Grande jogador de futebol, açoriano de gema, gente simples, humilde e bem formada, com um coração do tamanho do mar que sempre vislumbrou. O maior marcador de todos os tempos da selecção do meu país.

O açor vai voar de novo! Parabéns Pauleta!

E, já agora, apareçam.

quarta-feira, janeiro 07, 2009



A DIMENSÃO DO FUTURO

Repara na pequena
semente da araucária
levada ao sabor do vento.  

A sua humildade
esconde a dimensão do futuro.

Ponta Delgada, 2009-01-09
Aníbal Raposo

segunda-feira, janeiro 05, 2009



O VELHO E A DANÇA


Havia um velhinho

Límpido cavalheiro

Muito bem formado

Mas muito lampeiro.

 

Num baile bispou

Donzela sem dolo

Deu-lhe por completo

A volta ao miolo.

 

Sentiu o idoso,

Como é bom de ver,

De novo a paixão

A querer renascer.

 

Com muito denodo

(Caso singular)

Dirigiu-se à moça

Resolveu dançar.

 

Convidou a dama

Para o salsifré.

Passos à deriva

De trôpego o pé.

 

Dançou, tanto, tanto

E com tanta gala

Que se estatelou

No meio da sala.

 

Muitos assistiram

À cena patética

Que coisa ridícula

Escaganifobética.

 

Não é uma fábula

O caso é autêntico

Aconteceu mesmo

Ao velhinho excêntrico.

 

Supremo ditado,

Verdades eternas:

Tu nunca dês passos

Se não tiveres pernas.

 

Aníbal Raposo

2009-01-05

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Esta foi a minha participação no 10.º jogo das 12 palavras do blog Eremitério. Obrigado ao Eremita pela diversão.

Palavras-desafio:

Autêntico; deriva; escaganifobética; fábula; límpido; novo; paixão; querer; renascer; salsifré; singular; supremo.

quarta-feira, dezembro 31, 2008


SETE


São sete as colinas

De Roma, a cidade.

Sete são as notas

Do som da amizade.

 

As cores são sete

Que o prisma refracta.

São sete os pecados

E um pastel de nata.

 

São arcanjos sete

De Deus impoluto.

E sete é também

O número absoluto.

 

As constelações

São o sete-estrelo.

O templo sagrado

Sete anos a tê-lo.


Sete são os Chacras 

Entéricos, um mito?

Seth, irmão de Osíris

Foi Deus do Egipto.


Sete são os selos

Do livro, proféticos.

Sete sacramentos.

Princípios Herméticos.


Sete belas artes

Na mesma procura.

Sete palmos tem

Cada sepultura.


Os deuses no Olimpo

Sete formas são.

Os planos são sete

Da evolução.


Sete as maravilhas:

O mundo se ufana.

Sete são os dias

De cada semana.


São sete as virtudes

São sete verdades?

Há muitos caminhos 

P'rás Sete Cidades.


Ponta Delgada, 2008-12-31
Aníbal Raposo

domingo, dezembro 28, 2008



O TÚNEL DE LUZ

(dedicado ao meu amigo Fernando Loura)

o quarto
a penumbra
a alva colcha
a cama.

o rosto magro
de cera
agonizando
sem medo.

a angústia
estampada
na cara
dos que esperam.

o respirar
pausado
forçado
sibilante

o silvo
forçado
descompassado
o respirar.

subitamente
a pausa...

o desfecho
agora?

de novo
o silvo
forçado
pausado
o respirar
telúrico
ofegante

outra vez
a espera...

a noite 
imensa
eterna
sem sono

a resignação
há muito
substituiu
o desespero.

a atenção
ao respirar
a pausa
de novo

agora?

segundos-horas...

por fim
o túnel
a luz
a paz.

a lágrima 
derradeira
salgada
lambida
na face
dos que
ficaram.

o início
continuação
da saudade.

Aníbal Raposo
2008-12-28


Alguns dos meus poemas vão ser editados, pela primeira vez, numa colectânea de novos poetas. O livro, que terá por título "Entre o sono e o sonho - Antologia de poetas contemporâneos", resulta dum concurso levado a efeito pelo Portal Lisboa e será publicado pela Chiado Editora.

Para mim, pouco habituado a estas coisas (sou mais ligado ao lançamento do disco), é uma alegria que quero compartilhar com os leitores do meu blog. Não faço ideia de quem serão os meus companheiros nesta aventura.

A apresentação da colectânea será feita, em princípio, no dia 31 de Janeiro, sábado, no bar Onda Jazz, em Lisboa.
 
Apareçam se tiverem tempo e se sentirem pachorrentos.

Vai ser sábado para mim.

terça-feira, dezembro 23, 2008



MEU AMOR

Eu sou o rio

O mar és tu

Eu morro
Para morar em ti

Lisboa, 2008-12-22
Aníbal Raposo

domingo, dezembro 21, 2008



CANTIGA DO SILÊNCIO


O silêncio é como uma agonia

Lentamente nos consome e faz sofrer

Meu amor, minha doce fantasia

Não me deixes de silêncio ensurdecer


Diz-me coisas banais, do dia-a-dia

Diz-me coisas nem que seja por dizer

Meu amor, minha doce fantasia

Não me deixes de silêncio ensurdecer


No silêncio pode haver certa poesia

A que a palavra dá corpo e faz crescer

Meu amor, minha doce fantasia

Não me deixes de silêncio ensurdecer


Aníbal Raposo

1982   

sexta-feira, dezembro 19, 2008



MENSAGEM DE NATAL

Meu menino Deus,

Cuida de todas as criaturas
que habitam este lindo planeta azul. 

Faz a humanidade dar um passo em frente:
Que haja Pão, Justiça e Paz
Para toda a gente.

Amen.


Um Santo Natal para todos os leitores amigos.

Ponta Delgada, 2008-12-19
Aníbal Raposo

quarta-feira, dezembro 03, 2008



CORRO RISCO

Corro.
Para quê?
Não derreteu Dali os relógios,
Tirânicos guardiães do tempo?
Para quê?
Se amanhã, quando renascer como árvore,
Vou abrigar os pássaros sempre que o sol cair.

Risco
Palavras,
Muitas, sem nexo.
Gostaria de riscar projectos de catedrais
Cujos pináculos rasgassem 
As nuvens que te ensombram a alma.  

Corro risco,
De não te saber amar
Com a fúria dum ciclone de Setembro.
Com a calma espelho d' água das lagoas.


Ponta Delgada, 2008-12-05
Aníbal Raposo

segunda-feira, dezembro 01, 2008



DA VAIDADE HUMANA
(VANITAS VANITATUM, ET OMNIA VANITAS)

É sempre junto ao mar,
perto da sua bela e incomensurável superfície azul,
que o meu turbulento espírito encontra a paz.

Só de o olhar descanso,
assim, como se entrasse de repente,
num reconfortante e sedativo sono.
Retempero-me logo do violento esforço que despendo
para resistir à sucção voraz do cavado vórtice
da vivência frenética, estúpida, sem sentido,
para onde a turba me impele, dia-a-dia.
 
É, também, no escuro da noite,
na pacatez do terraço da minha casa da fajã,
que mantenho o saudável hábito de sonhar acordado.

Às vezes, 
reclinado na minha cadeira de repouso, 
imagino que piloto a terra-nave,
e a levo a sondar cada luzeiro
que habita a imensidão dum céu de Agosto. 

Nessa minha viagem faz-de-conta,
perdido, algures, nos confins do universo, 
consigo ponderar, com fina exactidão, 
a minúscula, a ridícula pequenez
da futilidade humana. 

Ponta Delgada, 1 de Dezembro de 2008
Aníbal Raposo

domingo, novembro 23, 2008

Anunciando o Natal


Sem abrigo - Foto de Renato Fogal


ANUNCIANDO O NATAL


As tílias vestidas de luzes glaciares
anunciam a chegada do Natal
na cidade branca de Lisboa.

Vultos furtivos correm apressados,
numa baixa transida de frio,
procurando o aconchego do metro
e das casas-colmeias plantadas nos subúrbios.

O centro da urbe é um deserto.

Uma meta difícil a conquistar
no desgaste de cada madrugada.

No entanto, há quem resista à debandada geral.
Os
 deserdados da vida que, nRossio,
ajeitam cobertores em leitos de cartão canelado,
preparando mais uma noite ao relento
sob um céu faminto de estrelas.

Glória a Deus nas alturas!

E sonoros aplausos para a deslumbrante gruta azul,
do presépio profano e sem alma,

erigido aos pés da estátua
do Marquês de Pombal.

Lisboa, 2008-11-23
Aníbal Raposo

sábado, novembro 22, 2008



A FLECHA E A LIRA


Porque é que às vezes
As palavras que escrevemos
São como dardos envenenados?

Partem velozes do arco tenso da nossa memória
E cruzam os ares, sedentas na procura do alvo.
Por vezes e sem o desejarmos,
Atingem aqueles que amamos com tal brutalidade
Que ficamos banzados de espanto
Pelo forte impacto causado
E pela enorme violência dos estragos colaterais.

Depois agitam-se, frementes, soltam-se do alvo,
E fazem a viagem de regresso, em ricochete,
Ferindo-nos bem fundo, no peito.
Provocam golpes tão dolorosos
Que uivamos no chão transidos de dor.

Esconde o arco e a flecha velho poeta,
A hora é de tanger a lira.
Escuta a música do tempo...

Ponta Delgada, 2008-11-22
Aníbal Raposo


TARDE NA ROCHA


A tarde está calma e o mar chão.
Debaixo da latada
Interrompo a Saudade a meio
Para ouvir o concerto de um bando de garajaus que passa.
Depois, continuo o cortinado roxo...

Só Erika me entende.
À minha breve pausa
Brilham-lhe os olhos
Suaves lagos de azul.

Os meus amigos,
Com quem compartilho
A sábia espera do negro das uvas,
Estranham o parco interregno...

Aqui, neste lugar estranho
A verdadeira
União Europeia
Dos sentidos.

2002
Aníbal Raposo


FADO DA TAVERNA


Naquela rua estreitinha
Que do Arcanjo tomou
O nome, que perdurou,
Há uma casa onde o fado
É ouvido e acarinhado
(Naquela rua velhinha)

Todos os dias a eito
Até alta madrugada
Enquanto geme magoada
A guitarra portuguesa
Bebe-se vinho na mesa
Canta-se o fado a preceito

Ali mesmo ao pé do bar
Estão três pessoas à fala
Quase no centro da sala
Na mesa que é dos artistas
Três vozes, de três fadistas,
Que passo a enumerar:

A primeira é voz que ecoa
Com requebros alfacinhas
Canta cantigas velhinhas
Di-las com gosto e com raiva
Dá p'lo nome de Saraiva
E é natural de Lisboa

Já que vou entusiasmado
Vou nomear a segunda
Voz arrastada e profunda
Pelo peito o xaile traça
Piedade de sua graça
É corisca e canta o fado

Quando o Hilário cantava
Alta noite no Choupal
(E a sua voz de cristal
Toda a tricana escutava)
Já o Vitória entoava
Cantigas p'ró pessoal

Ao lado senta-se um mago
Da viola. Não tem par !
Quando se põe a tocar
Ataca acordes sem medo.
Peço desculpa ó Alfredo:
Quem toca assim não é Gago !

E por fim p'ra rematar
Que vai longa a cantoria
Como se fosse magia
Ouve-se um som que não engana
Sai das mãos do Zé Pracana
É uma guitarra a chorar

Naquela rua estreitinha
Que do Arcanjo tomou
O nome, que perdurou,
Há uma casa onde o fado
É ouvido e acarinhado
(Naquela rua velhinha)

Aníbal Raposo
1990-08-10


REMA


Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema lanchinha
Pró alto mar

Rema que rema
No mar irado
Gostar de ti
É um triste fado

Rema que rema
Na calmaria
Senhor S. Pedro
És o meu guia


Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema lanchinha
Pró alto mar


Rema que rema
Pelo mar fora
Segura o leme
Nossa Senhora

Rema que rema
Pró areal
Se te não vejo
Passo bem mal


Aníbal Raposo
Agosto 2000

sexta-feira, novembro 14, 2008


O homem do leme - escultura de Américo Gomes

DA VIDA E DO RUMO

No que concerne
À atitude
Assumo a postura
Do fio-de-prumo.

Rectilínea,
A probidade do espírito.
A esquadro a traço.

O círculo perfeito, destino
À verdade e à lealdade,
Virtudes irmãs
Que risco a compasso.

E a proa da barca
Da vida e da morte
Apontada a norte
Por ser o meu rumo.

Relva, 2008-11-17
Aníbal Raposo

quarta-feira, novembro 12, 2008


À HORA EM QUE OS POETAS SE INQUIETAM


Há momentos tão feitos à dor

Que soltam sentimentos, que os despertam.

Eu, por mim, sou dado a males de amor

À hora em que os poetas se inquietam.

 

Na hora em que os meus versos nascem soltos

Há um pôr-do-sol tão roxo que seduz.

As formas em recorte contra-luz

E os mares do meu peito tão revoltos.

Um bando de estorninhos, nuvem preta.

A dança em rodopio dos morcegos.

Há um ferver do sangue do poeta

Que entrou na hora dos desassossegos.


Rocha da Relva, 2002

Aníbal Raposo

terça-feira, novembro 11, 2008



A MARCHA

Porque é que ao caboucar o poema
Me vêm sempre à lembrança
Imagens inesperadas
Que me tolhem a fluidez do verso?

Porque é que a razão e o sonho
Em mim sempre se atropelam
Na estúpida ansiedade
De quererem ser as primeiras a cortar a meta?

Porque é que vislumbro sempre vis cumplicidades,
Na persistência das sombras que me agridem,
Me servem penosas insónias nocturnas
E me encrespam o riso?

Às vezes penso que esses fantasmas assim agem
Porque ouviram, de segura fonte,
Que o riso é o som da água que corre
Na ribeira do pensamento cristalino,
Das consciências livres.

Ouviram e sabem que a felicidade
Flutua na turbulenta torrente da utopia,
Que é o pão e o vinho das almas libertas,
De preconceitos e máscaras.

Das almas que ousam romper
As grilhetas que guardam cativas
As tristes personagens do grande teatro de marionetas
Em que transformaram as nossas vidas.

Por isso nos querem,
Marchando:
Todos sem tempo,
E todos a tempo.

E nós lá vamos
Marcando passo
Com as botas da tropa
E também com outras
De biqueira de aço.

Um! Dois! Três!
Esquerdo! Direito!
Perfeito!

No tempo certo,
Marcando passo.
Tudo a preceito,
Tudo proveito,
Tudo a compasso. 

Ponta Delgada, 2008-11-11
Aníbal Raposo

sexta-feira, outubro 31, 2008



COLECCIONANDO ESTRELAS

Em vez de andares a vasculhar
Por entre as teias do sótão do ressentimento,
Aproveita o dia...

Deixa este sol de Outono
Acariciar-te a cara e diz:
Estou vivo!

Põe-te a escrever as canções que faltam
No teu sonhado álbum branco:
O luminoso.

Tu sabes bem que é na lua nova
O tempo certo para se coleccionar estrelas.

Põe as palavras de amor
A vibrar na frequência exacta,
Como se tentasses afiná-las
Pelo sagrado diapasão do universo.

E lembra-te que o poema mais sublime
Tem o tom do que é e faz sentido.

Ponta Delgada 2008-10-31
Aníbal Raposo