quarta-feira, novembro 20, 2013





















FADO DA INGRATIDÃO

Não sei porque te canto
Nem sei porque te quero
Tu és o meu quebranto
E desespero

Companheiro na noite
O espinho do meu dia
O ferro de um açoite
Uma agonia

Fado louco
Dás tão pouco
A quem te adora
Mas mantens pela vida fora
O que é chama num artista

Fado duro
Te esconjuro
Na verdade
Por tu seres pai da saudade
Que é o fado dum fadista


Aníbal Raposo
Maio de 1991

terça-feira, novembro 19, 2013



















PESCADOR DE SONHOS

Estou neste banco sentado
Olhando o nada à tardinha.
Cá por mim nunca me enfado
A pescar sonhos à linha.

Calcorreio o meu passado,
Assobio uma modinha,
Chego a dormir um bocado
A pescar sonhos à linha.

Navego, pano enfunado
Do vento que se avizinha,
Quando estou aqui sentado
A pescar sonhos à linha.

Sei do que sou acusado:
Não cuido da sorte minha.
Deixem-me estar sossegado
A pescar sonhos à linha...

Relva, 2013-11-19
Aníbal Raposo

(Foto de Paulo Dias 
Fishing a Dream)

terça-feira, novembro 12, 2013



















MAESTRO

O desafio último
É conduzir o sonho
Na plenitude dos sentidos.


Relva, 2013-11-12
Aníbal Raposo
(foto de Benoit Courti)

domingo, novembro 10, 2013



















MARIONETAS

Assim nos desejam:
Vazios, sem rosto,
Costas ao futuro,
Com os dias nus,
Seres articulados.

Penso que gracejam
Com o nosso desgosto.
Não sonham quão duro
É o peso da cruz.
Estão bem enganados...

Relva, 2013-11-10
Aníbal Raposo

(Foto de Rosie Hardy)

sábado, novembro 09, 2013















ROCHA

É aqui
Que me acho
E sei de mim.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-11-07













ROSA

És uma rosa
E o teu perfume
Coisa mimosa
É um mar de lume.


Aníbal Raposo

Relva, 2013-11-09
(foto tirada hoje no meu jardim)

quinta-feira, outubro 31, 2013



















DESPERTAR

Ao ver o astro-rei
Nascer no teu sorriso
Em cada madrugada

Sinto, como direi?
Que tenho o que preciso.
Já ganhei a jornada.

Relva, 2013-10-31
Aníbal Raposo

quarta-feira, outubro 30, 2013













CONTRASTES

Se em mim procuras calma
Eu sou desassossego
Se queres é companhia
Eu vendo solidão
Se tu pretendes alma
Eu cedo desapego
Se buscas alegria
Eu vivo em depressão

Se anseias por esperança
Eu sou um mar revolto
Se não te interessa o joio
Eu não sou trigo são
Se procuras bonança
Sou um cavalo solto
Se careces de apoio
Está fria a minha mão

Se a planura é teu sonho
Nasci desfiladeiro
Se estimas água mansa
Em mim tens golpe de asa
Se me aspiras risonho
Não tens um bom parceiro
Se queres é confiança
Eu sou um ferro em brasa

Pensas que tenho emenda
Eu não sei merecer-te
Tu foges de tormentos
Eu renego verdades
Procura quem te entenda
Que não sei perceber-te
Tu não semeias ventos
E eu colho tempestades

Relva, 2012-10-30
Aníbal Raposo

(Para o meu próximo CD)

terça-feira, outubro 29, 2013



















ANJOS E DEMÓNIOS

Feitiços e bruxarias
Caldeirões a bom ferver.
Eu quero aqui vos dizer
Que quase todos os dias
Tendo à frente um diabinho
Lanço meus sonhos ao ar.
Tenta todos rebentar
Mas eles fazem caminho.
Este capeta é um anjinho...

Relva, 2013-09-29
Aníbal Raposo

domingo, outubro 27, 2013













NEVOEIRO 

Perto do mar vejo o lenço
De nevoeiro a descer
Falésia abaixo, tão denso...
Há até vezes que penso
Que sou peixe sem saber

Rocha da Relva, 2013-10-27
Aníbal Raposo

















PÉ DE VENTO

Tu sabes que és, meu amor,
A minha estrela polar
A minha explosão de cor
Meu pé de vento solar


Relva, 2013-10-24
Aníbal Raposo

sexta-feira, outubro 25, 2013













CHUVA

Sinto a tristeza a crescer
Já não seguro a emoção
Chove chuva, a bom chover
Dentro do meu coração

Relva 2012-10-24
Aníbal Raposo


















 LONGE NA TARDE

Um banco de jardim ali plantado
Com fina precisão. Centro de nada.
Convite aberto à reflexão
Sobre o rasto dos meus passos
Nesta fugaz jornada.

Sentei-me.

Na tarde imensa,
Qual curva do tempo eterno,
Desassombrada,
Saboreei o mel e o fel
Da minha estrada.

No quente abrigo
Da concha segregada
Ri de alegrias
E de tristezas
Que vivi.

Caiu a noite.

Quando os candeeiros
Por fim se iluminaram
Andava eu longe...

Posso jurar
Por Deus
Que luz não vi.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-10-25

(foto de Brandace Myers)

domingo, outubro 20, 2013













A MESA

Faço gestão, alguma engenharia
Faço o que posso e gosto, tem de ser...
Ganho o meu pão sonhando com o dia
Em que as palavras bastem p'ra comer

Aníbal Raposo
Relva, 2013-10-20

sábado, outubro 19, 2013














DESNORTE

Nós somos, tu e eu, dois sóis ardentes
De fogo iluminados, consumidos,
Em pelejas de amor ledas e quentes,
Explodindo na folia dos sentidos.

De tanto nos acharmos, tão perdidos
Em devaneios mil, beijos frementes,
Por entre gritos cavos e gemidos
Tocamos o universo dos dementes.

Por isso aqui declaro meu amor
Que gosto de te amar com tanto ardor
Como se fosse sempre a vez primeira.

Corações irmanados, ternos laços.
Que sorte não ter norte nos teus braços
Eternamente arder nesta fogueira.


Relva, 2013-10-19
Aníbal Raposo



segunda-feira, outubro 07, 2013

















LONDRES

Vou de abalada
Uma vez mais
Ave de cais
Mira cidades

Voo à procura
De me encontrar
No demandar
Diversidades

Depois regresso
Ao doce encanto
Do meu recanto
Funda raiz

Onde com Deus
Acho descanso
Sinto o mar manso
E sou feliz.


Relva, 2013-10-07
Aníbal Raposo


sexta-feira, setembro 13, 2013


















TRAPEZISTA

Com o sangue a pulsar nas veias
Preparo mais um voo no trapézio.

Gosto de pensar
Que toco o público.

Vou saltar com rede.

Ponta Delgada
2013-09-13




segunda-feira, setembro 09, 2013























INCÊNDIOS

Céu e mar em chamas
Recordam que me amas
Neste fim de tarde.

Luz na despedida.

E o meu coração,
Entra em combustão,
Consome-se e arde.

Benta seja a vida.

Rocha da Relva
2013-09-08

sábado, agosto 10, 2013














UNS TROCOS OU UM SORRISO 

Sei que tens bom coração
E sabes do que preciso:
Não tens uns trocos à mão?
Deixa ficar um sorriso...

E se és homem de coragem
Ri-te de ti, meu amigo,
Já que és dente da engrenagem
Que de mim faz um mendigo.

Aníbal Raposo
(a propósito duma foto no perfil do Paulo Bettencourt)
Relva, 2013-08-10

sexta-feira, agosto 09, 2013

Santa Clara














SANTA CLARA

Do teu avanço mar fora,
Tomou o nome a cidade.

Na memória, a tua indústria
Terra de mãos operárias
E de bom toque de bola.
Em ti se esculpiram quilhas
De marceneiros de sonhos
E cabouqueiros de cais.

O teu farol é emblema
Que assinala caminhos
Na vida dos deserdados.
Porto de abrigo do mundo.

Pequena e singela urbe
De sótãos tão arejados.
Mistura de tons na pele
Abraço do que é diverso,
Repouso e paz dos proscritos,
Paleta e som da saudade.

Assim és tu, despojada
Mas nobre terra, fagueira,
Cresceste bem à imagem
Da tua mãe padroeira.

Aníbal Raposo
2013-08-08

segunda-feira, julho 22, 2013













CHÃO DE LAGOA

hoje é dia de recordar,
como o poeta,
em serena paz,
sem amargura,
que mesmo um grande amor,
muito sentido,
só pode ser eterno
enquanto dura.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-07-22

sexta-feira, julho 19, 2013



















A PROPÓSITO DUMA FOTO PUBLICADA
NUM PERFIL DE MÁRIO DORMINSKY

Isto não é brincadeira
Até me dá um calor
E afirmo, bem disposto
Que não sei do que mais gosto:
Se do design da cadeira
Se da tiara o alvor.

Aníbal Raposo

Relva, 2013-07-19



JUSTIÇA

Ontem mesmo eu aprendi
Uma excelente lição:
Nem sempre a razão da força
Vence a força da razão.

Aníbal Raposo
Relva 2013-07-19

domingo, julho 14, 2013













FIM DE TARDE

Irmão,

Ir?
Mão?

Aproveita bem a calmaria

A cal?
Maria?

Que vem aí borrasca

Borra
Rasca.

Fim de tarde nas Milícias
2013-07-14
Aníbal Raposo

sábado, julho 13, 2013












VIAGEIRO

As raízes
No chão em que se nasce.

As malas
Sempre aviadas p'ra voar.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-07-13

quarta-feira, junho 19, 2013

Saudades de ti tão perto





















SAUDADES DE TI TÃO PERTO

Meu Deus, como era bom ter-te comigo
Aqui no doce abrigo do meu lar
Amar-te de mansinho sobre a cama
Com a calma que um casal tem de se amar

Perder-me nos teus seios e encontrar-me
Molhando esse teu ventre e prazer meu
Morrer, braços em cruz, nesse teu corpo
Tendo a certeza de acordar no céu

Meu Deus tira-me a paz, tira-me tudo
Até os olhos meus podes cegar
Mas nunca, aqui te peço, me retires
O voo, a liberdade de sonhar


Aníbal Raposo
balcão do Zás Trás
1997-07-05

domingo, junho 16, 2013












CEIA DE CRIADORES

Dai a bandeira a beijar
Cante a folia de novo
P'ro Divino abençoar
O coração deste povo

Aníbal Raposo
Remédios da Bretanha
2013

sábado, junho 08, 2013



Mar. Azul que ondula ao vento.
Imenso, robusto, intenso.
Via e sentimento.

"Hai-Kai" Aníbal Raposo
Relva, 2013-06-08























CADA QUAL TEM O SEU DEFEITO
(Aliud alic vitio est)

Se alguém que prezas
Te feriu fundo, sem querer,
Não leves isso a peito.
Cada qual tem o seu defeito.

És capaz de desculpar
O erro alheio?
Nunca percas o jeito...
Cada qual tem o seu defeito.

A vício e a virtude
Sempre se cruzaram
Num atalho estreito...
Cada qual tem o seu defeito.

Se a vida porventura te sorri
Mira-te bem,
Julgas que és o eleito?
Cada qual tem o seu defeito.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-06-08

domingo, maio 26, 2013















NADA VEM DO NADA
(De nihilo nihil) - Lucrécio

Se o teu coração insiste
Em esperar muito de alguém
Que não tem alma. Desiste,
Que do nada nada vem.

Onde há fogo avistas fumo,
São esperanças vãs. Ninguém
Sem consciência e sem sumo
Pode dar o que não tem.

Se algo aguardas dum malvado,
Que olha os outros com desdém,
Bem podes esperar sentado
Pois do nada nada vem.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-05-26

sábado, maio 18, 2013













LUA

levanta-te astro louco,
musa minha irmã,
tecedeira de quimeras
e risca atalhos de prata  
no mar de azeite
da minha fajã.

Aníbal Raposo
Relva,2013-05-18

sexta-feira, maio 17, 2013


















ROMPER O AZUL

olho para a frente e penso
em adejar ligeiro
urge acelerar.

pela lei natural da vida
breve é o futuro.

sendo que há tanto
azul para romper
e sonhos a cantar.


Aníbal Raposo
Relva, 2013-05-17

quarta-feira, maio 01, 2013



MAIO

eu canto um maio moço,
um mês que cheire a rosas
vermelhas, orvalhadas,
recentes e viçosas.

um maio de alvoroço,
um maio-mar-de-gente
a liberar o sonho,
erguida, finalmente.

eu canto o maio ansiado,
aquele que há de vir,
um maio renovado,
maio-menino a rir.

um maio desenvolto,
um maio-meio-céu,
maio maduro, solto
desta noite de breu.

Aníbal Raposo
2013-05-01

sexta-feira, março 08, 2013



















MULHER

Musa eterna
Uva túmida
Livro estranho
Hora breve
Erva doce e
Rosa húmida.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-03-08

terça-feira, fevereiro 26, 2013
















CRIANDO MUNDOS

Com magia e com ternura,
Em pouco tempo, segundos,
Menina, minha alma pura,
Um sopro teu cria mundos.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-02-26

sexta-feira, fevereiro 01, 2013















PÉS AO CAMINHO

De novo me preparo
física e espiritualmente
para me por a caminho
e rezar, na companhia de meus irmãos,
circundando esta formosa ilha verde.

Para alguns dos meus amigos.
os que me conhecem de antanho,
esta é uma decisão estranha.

Eu sei bem o que me move.

Ano após ano e por esta altura
sinto uma força nascer dentro de mim
que me arrasta de forma incontrolável
para esta enxurrada de fé
que me lava a alma.

Seja para sempre louvada
a sagrada vida, paixão,
morte e ressurreição
de Deus, nosso Senhor
Jesus Cristo!

IR. Aníbal Raposo
2013-02-01

sexta-feira, janeiro 25, 2013













DEGUSTAÇÃO

Abrir-te, devagar, em sedosa claridade.
Beber-te, como um vinho, até à saciedade.
Saber-te pela alva, em pleno e de verdade.

Aníbal Raposo
2013-01-25

quinta-feira, janeiro 24, 2013















BRINDE À AMIZADE

Minha amiga, eu tenho uma cantiga para te dar
Agora que já se acalmou o mar
E a chuva cai lá fora de mansinho
Ergamos uma taça de bom vinho
Que esta fogueira é boa e vai durar

Minha amiga, aceita esta afeição doce e discreta
E desculpa os devaneios de um poeta
(Que por sistema é sempre um fingidor)
Acabo de passar além da dor
E de fechar meus sonhos na gaveta


1991
Aníbal Raposo

segunda-feira, dezembro 31, 2012













NOVO ANO

Precipito-me para este voo
como se deixasse o ninho
pela vez primeira.

Alguém tingiu as nuvens de preto
e colocou um assobio na boca do vento.

Parto num susto
mas já desembainhei a esperança.

Aníbal Raposo
Relva, 2012-12-31

domingo, dezembro 09, 2012



 

A ARTE DE VOAR

Suave brisa,
ondulante,
quase não pisa
o chão. Flutuante,
enceta um voo que dramatiza
o amor. Num breve instante,
e em equilíbrio instável, eterniza
a linda arte de dançar. Desconcertante... 


Aníbal Raposo
2012-12-09


domingo, dezembro 02, 2012












CANTO DE AMOR E DE RAIVA

Muito padece de amor aquele que ama
A manhã dos olhos teus atiça a chama
Não me vou se Deus quiser
Sem a alegria de ver
Um enorme sol a arder
Na nossa cama

Em cada gesto teu há claridade
Em cada sorriso alvo uma saudade
Neste fogo abrasador
Sei-te bem, sei-te de cor
Voemos pois meu amor
Em liberdade


Pela barca portuguesa o povo teme
Nesse mar que se agiganta o casco geme
Não temos porto de abrigo
Ver um rumo não consigo
Nesta nau em desabrigo
Não há leme

Muito mal vai um país que os filhos drena
Brota de novo feroz a vil gangrena
Não posso, não me demovo,
Há que fazer que de novo
Volte a ser o nosso povo
Quem ordena

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-12-01

sexta-feira, novembro 23, 2012















SEI DUM POEMA

Eu sei dum poema louco
Nascido dum grito rouco,
Que por pouco
Não calou.

Também dum poema pomba,
Alva, branca. De mim zomba.
Sonho-bomba
Que estourou.

Sei do poema indigente,
Tingido de inteligente.
Do demente
Que alucina.

Do poema que não diz,
De feiticeiro aprendiz,
Meretriz,
E concubina

Sei do poema matreiro,
Velado, mas verdadeiro,
Sorrateiro,
Que desperta.

Amo o poema, que arrasa
Vento, fúria que extravasa,
Golpe de asa,
Que liberta!


Aníbal Raposo
Relva, 2012-11-23

quarta-feira, novembro 14, 2012













QUANDO O TEU OLHAR

Quando o teu olhar
Dirigido a mim
Disser: Sim !
Vou fugir depressa
Para que esqueça logo
Os sonhos que me vão pela cabeça
Porque eu não posso dar ao meu peito
Nem a chance de te amar

Mas se o teu olhar
Por qualquer razão
Disser: Não !
Vou ter pesadelos
Arrepelar cabelos
Porque belos foram
Sonhos e desvelos
Porque os castelos no ar que erigi
Vão ruir com o teu olhar

Aníbal Raposo
1989 

domingo, novembro 11, 2012

















QUADRAS NO DIA DE S. MARTINHO

Trabalhei desde manhã
No dia de S. Martinho
Nem sequer fui à fajã
Provar o meu rico vinho

Pareço um tipo de antanho
(Oh palerma não descansas?)
Trabalho tanto e o que ganho
Vou entregar às Finanças.

É trabalhar, trabalhar
Sem ter do corpinho dó
Para depois sustentar
Muito burro a pão de ló

Aníbal Raposo
Relva, 2012-11-11

quinta-feira, novembro 01, 2012





















AOS PRESENTES

Partiram?
Quem partiu?
Os que largaram amarras
São os que continuam firmes
Para nosso alento
Bem aqui ao lado.

Partiram o quê...
Na verdade
Só se parte
Quando se entra,
De forma perene,
No soturno vale
Do esquecimento.

Partiram?
Para onde?
Não me basta cerrar
Os olhos por breves segundos
Para os rever tão vivos
Mesmo à minha frente?

Partiram?
Porquê?
Quiseram libertar espaço
À formosa árvore
Da aprendizagem
Para estender os ramos?

Partiram?
Como?
Se com eles continuo
A partilhar diariamente
Cada singela dúvida
Da minha existência.


Aníbal Raposo
Relva, 2012-11-01
(em véspera de Finados)

segunda-feira, outubro 22, 2012
















OS CARNEIRINHOS

Os carneirinhos tão engraçados
Vão  p'ró redil com mil cuidados.

Sempre em manada, que rica que é,
Não dizem nada, fazem mémé.

Todos os anos os carneirinhos
São tosquiados sempre mansinhos.

Distraidinhos, sem intenção,
Entram um dia num camião.

Seguem fofinhos, são um tesouro,
Alegrezinhos p'ró matadouro.

Quando, por fim, abrem os olhinhos
Já é tão tarde vão p'ra bifinhos.

Muito maltratam os probrezinhos
A linda graça dos carneirinhos.

E inda se lembram, sempre também,
Dos seus paizinhos, das mães que têm.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada 2012-10-22