sexta-feira, março 14, 2014










VER E VIR

Mil desculpas por esquecer
Por não saber distinguir
O veem do verbo ver
Do vêm do verbo vir



(Traiçoeira esta nossa amada língua)


Relva, 2014-03-14
Aníbal Raposo

terça-feira, março 11, 2014



















O TEMPO E O ESPAÇO

O devir dos dias
encolhe o espaço
perante o olhar.

Ao invés, aumenta
o nosso embaraço
de o esquadrinhar.


Relva, 2014-03-11
Aníbal Raposo

Foto de Maurizio Srippoli - Gypsy em "A lifetime photography" 

sexta-feira, março 07, 2014



















ÁFRICA

Nunca te pisei
oh mãe do início
solo abençoado
natureza nua

Tão-somente sei
quanto me é propício
caminhar ao lado
duma filha tua

Relva, 2014-03-07
Aníbal Raposo

quinta-feira, março 06, 2014
















NO CANTO DA JANELA

Há sempre uma razão
que torna a vida bela:
uma flor,
um gato,
um sorriso,
no canto
da janela.

Relva, 2014-03-06
Aníbal Raposo

Foto de Walter Rosenblum

quarta-feira, março 05, 2014






















VOAR NO CHÃO

Eu bem sei que no chão estou.
Brincar é pairar
no céu com o que já voou.

Relva, 2014-03-05
Aníbal Raposo

sábado, março 01, 2014













HORIZONTE

Anda amor, demandemos
A linha do horizonte.

Há muito que sabemos
Que está aí, defronte,
Mas é inatingível.

A vida é um mistério.

Quem quer viver a sério
Persegue o impossível.


Relva, 2014-03-01
Aníbal Raposo

Foto de Scott Black in " A lifetime photography"


CARNAVAL

Com a máscara colocada
Podes ter o mundo aos pés
Mas eis que te é retirada:
Logo sabemos quem és.

Relva, 2014-03-01
Aníbal Raposo

domingo, fevereiro 23, 2014


























IMAGENS E NÚMEROS

Pisamos as pedras do nosso caminho
Seguindo a linha implacável do tempo
Se são familiares os nossos elementos
E as nossas raízes fundas mas exatas
Desenhamos quadrados perfeitos
Nos círculos da eternidade.

Relva, 2014-02-23
Aníbal Raposo

Foto de Klaus Rinke 1972

domingo, fevereiro 16, 2014





















LUZ

O início e o destino
final. Alvo ancestral:
tocar o divino.


Relva, 2014-02-16
Aníbal Raposo

(foto de Fernando Lemos, Luz Teimosa, 1949)

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

CASA DA ACHADA
(centro Mário Dionísio)

Há portas assim
Que se escancaram francas e singelas
À divina criação de ideias e de palavras belas.
Cor nas cantigas. Sons nos tons das telas.


Mouraria, Lisboa, 2014-02-13
Aníbal Raposo






















ASAS NO CHÃO

Ai cai? Não vamos, paciência. 
Há momentos de ser ave
E outros de prudência.



Retido pelo mau tempo na Capital do Império


Lisboa, 2014-02-13
Aníbal Raposo

sexta-feira, fevereiro 07, 2014
















ASSUNTO PENDENTE

Quando de mim me afastei
O tempo ficou suspenso.
Dizem que voei.

Relva, 2014-02-07
Aníbal Raposo

quinta-feira, fevereiro 06, 2014


















AMIZADE

Ser amigo é plantar ribeiros nos desertos
da vida. Somar com risadas coisas sérias.
Ter sempre a nossa casa e o coração abertos.
Compartilhar sem juros glórias e misérias.


(Em dia de amigos - celebrado nos Açores)

Relva, 2014-02-06
Aníbal Raposo

terça-feira, fevereiro 04, 2014

























CERCOS

A cada dia
Lançam novas redes
E contam com a nossa distração
Para nelas nos prendermos
Até à asfixia.

Tempos depois
Voltam de novo
E apanham-nos facilmente.

Exaustos,
À mão de semear.

Relva, 2014-02-04
Aníbal Raposo

quarta-feira, janeiro 29, 2014




















CREDO

Creio que um sol radioso,
E com brilho singular, restará de mim
Quando eu, sorrateiramente,
Me escapar, ao cair da noite,
Neste meu velho navio,
Demandando a luz eterna.

Relva, 2014-01-29
Aníbal Raposo

domingo, janeiro 26, 2014
























FAZENDO OS PÉS AO CAMINHO

Romeiro, romeiro, quem és tu?
Pela décima vez me voltarei a perguntar.

E sei que de novo me acharei
Algures, no chão sofrido dos caminhos que pisar.

E no fundo do olhar de cada irmão
Verei a Deus. São águas claras,
As da corrente sagrada da oração.

Relva, 2014-01-26
Aníbal Raposo

sábado, janeiro 18, 2014




















JANELAS DO TEMPO

Menina estás à janela
Com esse xaile tão escuro
Não me vou daqui embora
Sem ler em ti o futuro.

Sem ler em ti o futuro
Sem sentir um arrepio.
Com quantas saudades se urde
Um olhar assim vazio?

Menina estás à janela
Da solidão que te invade
Olhando um mundo cruel
Sem respeito pela idade.

Sem respeito pela idade
Que os mais velhos atropela
Que faz por esquecer que um dia
Há de estar nessa janela.

Menina estás à janela
À espera de quem não vem
Não me vou daqui embora
Espero contigo também.

Espero contigo também
Essa hora da verdade
Da luz, da janela aberta
Para a eterna liberdade.

Relva, 2014-01-18
Aníbal Raposo

Foto de Rui Palha em "Street Photography"




segunda-feira, janeiro 13, 2014


























PAIXÃO

Adivinha-se o som
Telúrico.
A explosão
Do magma.

Abrem-se as narinas,
Em busca do perfume.
A pele arrepiada.

Relva, 2014-01-13
Aníbal Raposo


Passion play
Foto de Diana Mehrez 
in "A lifetime Photography"

domingo, janeiro 12, 2014

















Sobre uma poesia da Maria Isabel Fidalgo

Há versos que se devem quedar sós
Pois neles as palavras brilham tanto
Que sem voz ficamos pelo espanto
Que a luz irradiada deixa em nós

Relva, 2014-01-12
Aníbal Raposo 


Foto de Andrea Gasparotto in " A lifetime photography"











ALMA E SOM

Uma alma em cada nota
Uma nota a cada alma

Relva, 2014-01-12
Aníbal Raposo


















CAÇADORES DE SONHOS

Não afundemos na desesperança
Dos mares do medo, negros, tão medonhos,
Corramos lestos perseguindo a esperança
Alucinados caçadores de sonhos.

Relva, 2014-01-12
Aníbal Raposo

sexta-feira, janeiro 10, 2014





















PENSAMENTO

Há sempre uma árvore
Que inventa sombra
Num deserto
De ideias

Relva 2014-01-10
Aníbal Raposo

Foto de Nilgun Kara
in "A lifetime Photography"

terça-feira, dezembro 31, 2013



















PARTIDAS

Ver-vos largar
Com o grande pássaro
É soltar rios nos olhos.

Mas é, também,
Acender mil sóis no peito,
Discernir no vosso golpe de asa
O adejar prudente mas sem medo,
Conforme foi ensinado neste ninho.

Relva, 2013-12-31
Aníbal Raposo

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Ao Deus menino

















AO DEUS MENINO

Por mim, tenho esta crença:
Continuas a nascer todos os dias
Nas esquinas ignoradas 
Da indiferença.

Relva, 2013-12-23
Aníbal Raposo

domingo, dezembro 22, 2013

















INVERNO

Três anjinhos brancos a nadar no inferno
Dizem-me que hoje começa o inverno.
Um dia maior só por ser tão curto
Num país de escolas da arte do furto.


Há carniça fresca e abutres em luta
E um galo de fraque servindo sicuta.
Em Belém há casas bem mal frequentadas
O demo é solista de missas cantadas.


Paciências chinas num infindo advento
Rios tão educados no seu movimento.
Se a porca já guincha vem aí matança
Um servil mordomo é o mestre da dança.


Numa mãe ditosa feita meretriz
Um robô biónico fala mas não diz.
Um eterno seguro em equilíbrio instável
Enorme eucalipto medra em terra arável.


As velas da esperança não chegam à costa
Cospem-nos em cima e a gente gosta.
Mil e uma peças, os mesmos atores
Duas mil mentiras, três mil impostores.


Vamos erriçados em patranhas tantas...
Oh mar do capelo quando te levantas?

Relva, 2013-12-21
Aníbal Raposo

domingo, dezembro 08, 2013



















A ESTRADA

Há estrada para andar
Mas curta é a jornada.

Entender quem sou
Nesta caminhada
Procuro decifrar.

Marinheiro errante?
Humilde peregrino?
Impetuoso amante
De contendas febris?

Para mim, essencial,
Mesmo importante,
É estender a mão ao céu,
Tentar tocá-lo
E ser feliz.

Relva, 2012-12-08
Aníbal Raposo

sábado, dezembro 07, 2013





















CICLOS

Jazem folhas em campa rasa
Num chão amarelado de outono.

O círculo está perto de ser fechado.

Pressinto as explosões de verde
E o azul imenso do cantar dos pássaros
Nos céus voados da nova primavera.

Relva, 2012-12-07
Aníbal Raposo

quinta-feira, dezembro 05, 2013





















ANIVERSÁRIO

Os meus anos celebrar
Não dá trabalho nenhum
Fica a pergunta no ar:
É mais um ou menos um?

Relva, 2013-12-05
Aníbal Raposo 

(Signos: Sagitário e Cavalo)

terça-feira, dezembro 03, 2013


















LUSITANO

Corre meu corcel
Nos sons do vento
No teu galope
O meu contentamento

Voa meu ginete
E rasga o ar
Veloz compasso
Luz do meu cantar

Flecha pressurosa
O alvo sente
Fogo riscado
De estrela cadente

Relva, 2013-12-02
Aníbal Raposo

segunda-feira, dezembro 02, 2013






















ALVOROÇO
(blues)

Vou protestando
Contra os maus ventos
Que os momentos
Bons, vão rareando
Na tarde inquieta
Já se ouve um pranto
Neste recanto
Cheira a sarjeta
Estar agitado
É ofício
De poeta
Não estou sozinho.
Em cada esquina
Nasce outra sina
Um novo caminho
Vai-te queixume
Vivo o presente
Intensamente
Que a vida é lume
O importante
É remar
Contra a corrente
Vão me apertando
No torniquete
Sou um joguete
Dum vil desmando
Por que razão
No mês corrente
Num de repente
Foge-me o chão?
Cabeça erguida
Que estou vivo
E que sou gente!

Relva, 2013-12-02
Aníbal Raposo

terça-feira, novembro 26, 2013



VELHO COMBOIO

Acabou-se o jogo.
Potência do fogo,
Rajada de vento.

O tempo é algoz.
Mas voas veloz
No meu pensamento.

Relva, 2013-11-26
Aníbal Raposo

sexta-feira, novembro 22, 2013


























OCASO

Caminho lentamente
Na senda do crepúsculo.

Aguardo o abraço final.
A minha fusão com a terra mãe.

No dia em que fechar os olhos
Adivinho um lindo sol em chamas
A deitar-se num mar de azeite na fajã.

Quem baralhará
As partículas desfeitas
Do meu corpo?

Alguém as dividirá,
Como lhe aprouver,
E dará cartas de novo.

Quando ressuscitar
Serei um pássaro?

Ou renascerei como uma árvore
Onde outras aves farão ninho?

Relva, 2013-11-22
Aníbal Raposo

(Foto de FAN HO, Hong Kong Master Street)













VIAGEM

Juro que hei de conduzir
Esta velha barca
Ao porto certo.

Ah esta minha obstinação
De pegar de caras,
Com as mãos na anca
E o peito aberto,
Uma enorme lua.

Relva, 2013-11-21
Aníbal Raposo

quarta-feira, novembro 20, 2013





















FADO DA INGRATIDÃO

Não sei porque te canto
Nem sei porque te quero
Tu és o meu quebranto
E desespero

Companheiro na noite
O espinho do meu dia
O ferro de um açoite
Uma agonia

Fado louco
Dás tão pouco
A quem te adora
Mas mantens pela vida fora
O que é chama num artista

Fado duro
Te esconjuro
Na verdade
Por tu seres pai da saudade
Que é o fado dum fadista


Aníbal Raposo
Maio de 1991

terça-feira, novembro 19, 2013



















PESCADOR DE SONHOS

Estou neste banco sentado
Olhando o nada à tardinha.
Cá por mim nunca me enfado
A pescar sonhos à linha.

Calcorreio o meu passado,
Assobio uma modinha,
Chego a dormir um bocado
A pescar sonhos à linha.

Navego, pano enfunado
Do vento que se avizinha,
Quando estou aqui sentado
A pescar sonhos à linha.

Sei do que sou acusado:
Não cuido da sorte minha.
Deixem-me estar sossegado
A pescar sonhos à linha...

Relva, 2013-11-19
Aníbal Raposo

(Foto de Paulo Dias 
Fishing a Dream)

terça-feira, novembro 12, 2013



















MAESTRO

O desafio último
É conduzir o sonho
Na plenitude dos sentidos.


Relva, 2013-11-12
Aníbal Raposo
(foto de Benoit Courti)

domingo, novembro 10, 2013



















MARIONETAS

Assim nos desejam:
Vazios, sem rosto,
Costas ao futuro,
Com os dias nus,
Seres articulados.

Penso que gracejam
Com o nosso desgosto.
Não sonham quão duro
É o peso da cruz.
Estão bem enganados...

Relva, 2013-11-10
Aníbal Raposo

(Foto de Rosie Hardy)

sábado, novembro 09, 2013















ROCHA

É aqui
Que me acho
E sei de mim.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-11-07













ROSA

És uma rosa
E o teu perfume
Coisa mimosa
É um mar de lume.


Aníbal Raposo

Relva, 2013-11-09
(foto tirada hoje no meu jardim)

quinta-feira, outubro 31, 2013



















DESPERTAR

Ao ver o astro-rei
Nascer no teu sorriso
Em cada madrugada

Sinto, como direi?
Que tenho o que preciso.
Já ganhei a jornada.

Relva, 2013-10-31
Aníbal Raposo

quarta-feira, outubro 30, 2013













CONTRASTES

Se em mim procuras calma
Eu sou desassossego
Se queres é companhia
Eu vendo solidão
Se tu pretendes alma
Eu cedo desapego
Se buscas alegria
Eu vivo em depressão

Se anseias por esperança
Eu sou um mar revolto
Se não te interessa o joio
Eu não sou trigo são
Se procuras bonança
Sou um cavalo solto
Se careces de apoio
Está fria a minha mão

Se a planura é teu sonho
Nasci desfiladeiro
Se estimas água mansa
Em mim tens golpe de asa
Se me aspiras risonho
Não tens um bom parceiro
Se queres é confiança
Eu sou um ferro em brasa

Pensas que tenho emenda
Eu não sei merecer-te
Tu foges de tormentos
Eu renego verdades
Procura quem te entenda
Que não sei perceber-te
Tu não semeias ventos
E eu colho tempestades

Relva, 2012-10-30
Aníbal Raposo

(Para o meu próximo CD)

terça-feira, outubro 29, 2013



















ANJOS E DEMÓNIOS

Feitiços e bruxarias
Caldeirões a bom ferver.
Eu quero aqui vos dizer
Que quase todos os dias
Tendo à frente um diabinho
Lanço meus sonhos ao ar.
Tenta todos rebentar
Mas eles fazem caminho.
Este capeta é um anjinho...

Relva, 2013-09-29
Aníbal Raposo

domingo, outubro 27, 2013













NEVOEIRO 

Perto do mar vejo o lenço
De nevoeiro a descer
Falésia abaixo, tão denso...
Há até vezes que penso
Que sou peixe sem saber

Rocha da Relva, 2013-10-27
Aníbal Raposo

















PÉ DE VENTO

Tu sabes que és, meu amor,
A minha estrela polar
A minha explosão de cor
Meu pé de vento solar


Relva, 2013-10-24
Aníbal Raposo

sexta-feira, outubro 25, 2013













CHUVA

Sinto a tristeza a crescer
Já não seguro a emoção
Chove chuva, a bom chover
Dentro do meu coração

Relva 2012-10-24
Aníbal Raposo


















 LONGE NA TARDE

Um banco de jardim ali plantado
Com fina precisão. Centro de nada.
Convite aberto à reflexão
Sobre o rasto dos meus passos
Nesta fugaz jornada.

Sentei-me.

Na tarde imensa,
Qual curva do tempo eterno,
Desassombrada,
Saboreei o mel e o fel
Da minha estrada.

No quente abrigo
Da concha segregada
Ri de alegrias
E de tristezas
Que vivi.

Caiu a noite.

Quando os candeeiros
Por fim se iluminaram
Andava eu longe...

Posso jurar
Por Deus
Que luz não vi.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-10-25

(foto de Brandace Myers)

domingo, outubro 20, 2013













A MESA

Faço gestão, alguma engenharia
Faço o que posso e gosto, tem de ser...
Ganho o meu pão sonhando com o dia
Em que as palavras bastem p'ra comer

Aníbal Raposo
Relva, 2013-10-20

sábado, outubro 19, 2013














DESNORTE

Nós somos, tu e eu, dois sóis ardentes
De fogo iluminados, consumidos,
Em pelejas de amor ledas e quentes,
Explodindo na folia dos sentidos.

De tanto nos acharmos, tão perdidos
Em devaneios mil, beijos frementes,
Por entre gritos cavos e gemidos
Tocamos o universo dos dementes.

Por isso aqui declaro meu amor
Que gosto de te amar com tanto ardor
Como se fosse sempre a vez primeira.

Corações irmanados, ternos laços.
Que sorte não ter norte nos teus braços
Eternamente arder nesta fogueira.


Relva, 2013-10-19
Aníbal Raposo