sexta-feira, fevereiro 13, 2015















DA SIMPLICIDADE

Mas que vista tão singela:
- uma árvore e uma capela.

Numa ramos p'ra poisar
Noutra paz para rezar.

Ali estão sem sobressalto
Apontam ambas ao alto.


Relva, 2015-02-13
Aníbal Raposo

quinta-feira, fevereiro 12, 2015





















PAZ PODRE

(Leitura possível duma fotografia)

Houve alguém que suspendeu
usando de arte secreta
o fluir da areia fina
no gargalo da ampulheta.

Quem muita vida viveu
e lê os sinais da sorte
duma completa acalmia
só espera um sismo forte.

O artista e o contrabaixo,
vivem enorme paixão.
Tensões fortes e latentes
dividem o corvo e o cão.

Entre o artista e o corvo
vão só uns metros de chão.
Entre o perro e o instrumento
não se alcança ligação.

Há um contrabaixo e um corvo
mas não há magia, não.
Vejo um cão e um artista
mas não se nota afeição.

A ruína e o poeta
partilham a inquietação.


Relva, 2015-02-12
Aníbal Raposo

AVERSÕES E AFETOS

Nunca gostei de correntes
Abomino cadeados
Prezo as almas transparentes
Amo anseios libertados

Relva, 2015-02-12
Aníbal Raposo

terça-feira, fevereiro 10, 2015






















DOS SIGNOS

Pelo dia e mês
final e derradeiro
em que ao mundo cheguei
sou por metade gente:
- um rijo arqueiro
que envolto em feroz halo,
viril empunha o arco,
atira aos céus a flecha
e logo segue lesto.
No resto
sou cavalo...

Pelo ano, porém,
e pelo sinete que advém,
do velho e sino signo,
de pronto me resigno:
sou ginete...

Nascido Sagitário
já me juram que os astros
guardaram só bondade
para a minha criatura:
- ser positiva e sincera,
amar a liberdade,
gostar de viajar
prezar uma aventura.

Porém, de quando em vez,
vejo-me a erguer a espada.
Sem que haja um bom motivo,
atiro uma patada
e ponho-me ao estalo.

Isso é pouco cortez.
Admito ser errado.
Mas logo retratado,
a contrição rezada,
pisado sobrevivo.

Reajo assim, emotivo,
e falho por ser gente.
Mas gosto de estar vivo.
Possuo sangue quente,
e dois signos de cavalo...

Relva, 2015-02-10
Aníbal Raposo

segunda-feira, fevereiro 09, 2015















UM VELEIRO NOS TRÓPICOS

Um veleiro nos trópicos buscando ternas angras.
A sensual beleza dum corpo de mulher.

A lasciva humidade que atiça a fantasia.
A tumidez da carne, em gritos de clausura,  
Velada em escassos véus num jogo de adivinhas.

As narinas abertas, ansiando odores dementes.
Um vulcão incontido, a erupção prevista.


Relva, 2015-02-09
Aníbal Raposo

sábado, fevereiro 07, 2015
























DA ARTE DA PODA

Como pensar conter
o poder do raciocínio?


As ideias
são como ramos novos
que brotam irreverentes
nas erupções da mente,
perene árvore do espanto.

Bem sei
que sempre hão de existir
inquisidores de serviço,
de pena e foice em riste.

Gente que domina e aprecia
a afiada e bem retribuída arte do sufoco.

Mas para o bem
do equilíbrio universal,
há sempre ideias-ramos que resistem:
- À fúria das mentes castradoras.
- À cegueira das tesouras de podar.

Relva, 2015-02-07
Aníbal Raposo

sexta-feira, fevereiro 06, 2015



ARCO DE TRIUNFO

Por que razão
é celebrada
a glória em arco?

Para lembrar
como é fugaz,
e em breve cessa?

Nasce no chão
aponta ao céu,
e ao chão regressa...

Relva, 2015-02-06
Aníbal Raposo

quinta-feira, fevereiro 05, 2015














TONS
Entre o que é preto e branco,
moram cinzentos vários.

O tempo é sábio. Revela gradações
diversas em firmes certezas.

Gosto de pensar
que, numa vida repleta de sons,
consegui distinguir fortes mudanças
escondidas em quartos de tom.

Relva, 2015-02-05
Aníbal Raposo

















DA PARTIDA

Não conheço as coordenadas
do lugar para onde vou.

Nem vos posso assegurar
a hora em que o farei,
mas sei que vou partir.

Conforta-me a ideia
de ter um cais por perto.

É avisado ter a alma
pronta, no içar das velas.

Rezo para se faça com mar chão.


Relva, 2015-02-05
Aníbal Raposo

segunda-feira, fevereiro 02, 2015



















DOS PAVÕES

A coisa que mais odeio
É ver uma besta quadrada
Que se exibe em  pavoneio
Pisando terra queimada.

Relva, 2015-02-02
Aníbal Raposo

sexta-feira, janeiro 30, 2015






















DO EQUILÍBRIO  (III)

Como é difícil ter rumo
Princípios, honra, decência
Manter o fio de prumo
No mundo da concorrência

Relva, 2015-01-30
Aníbal Raposo






















DO EQUILÍBRIO (II)

Por vezes não é viável
A meta tão perseguida
De obter o equilíbrio instável
No monociclo da vida

Relva 2015-01-30
Aníbal Raposo



DO EQUILÍBRIO

Falar é fácil, caramba,
Difícil mesmo, meu irmão,
É viver na corda bamba
Sem dar com os burros no chão.

Relva 2015-01-30
Aníbal Raposo

quinta-feira, janeiro 29, 2015












DA PINTURA

Vou dizer-vos com franqueza
Esta vida é um papel
Onde dou cor à tristeza
Com a ponta do meu pincel

Relva, 2015-01-29
Aníbal Raposo

terça-feira, janeiro 27, 2015













GUITARRA

Cordas da minha guitarra
Seis irmãs de trato fino
É nelas que se desgarra
A certeza do destino

Relva, 2015-01-27
Aníbal Raposo

domingo, janeiro 25, 2015












HELÉNICOS

Com os gregos a decidir
Entra a Europa em alvoroço.
P'ra onde pode cair
Quem está no fundo do poço?

Relva, 2015-01-25
Aníbal Raposo


CHUVADAS E ROSAS BRANCAS
(Santa Maria à vista, água na crista)

E veio a água bendita
da ilha irmã que avistei.

Matou a sede à roseira
branca, linda companheira,
que ontem mesmo plantei.

Relva, 2015-01-25
Aníbal Raposo

sábado, janeiro 24, 2015

















DO ENGENHO

A mãe natureza
Tem astúcias mil
Espalha sementes
De forma subtil

Que possamos todos
De forma singela
Espalhar o bem
Aprender com ela.

Relva 2015-01-24
Aníbal Raposo 






















TANGO

Dançam lua e sol na pista dos sentidos
Cheira a erotismo, sons à flor da pele
Há um tango em chamas, fogo que os impele
À fusão dos corpos, tontos de perdidos.

Relva, 2015-01-24
Aníbal Raposo  

sexta-feira, janeiro 23, 2015



















DOM QUIXOTE

Enquanto houver forças, lança e armadura
Vou ser cavaleiro de triste figura.
Tomarei castelos, de velas ao vento
Por ti meu amor, meu precioso alento.

Inoportuno herói, procuro impossíveis,
O bem absoluto, porque sou propenso
A buscar quimeras, mesmo inatingíveis
Não concebo existir atado ao bom senso.


Relva, 2015-01-23
Aníbal Raposo

quarta-feira, janeiro 21, 2015




















GATOS

Gosto dos meus gatos.
Andam sempre à solta. Reis da liberdade.
Têm sete vidas. Se caem é de pé e com dignidade.
Olhos curiosos. Instinto apurado. Muita inteligência.
Sendo seres altivos baixam a acidez da minha existência.


Relva, 2015-01-21
Aníbal Raposo

Foto de Aitor Rioja

sábado, janeiro 17, 2015













DA LEITURA

Se me ponho a ler
Vão-se os meus cuidados.

O sonho dá-me asas,
Plano sobre as casas,
Abanco em telhados.

E percebo pontes,
Descubro horizontes
Morosos de ver.


Relva, 2015-01-18
Aníbal Raposo

Foto de Yana Bobrykova


















DE NOVO A ESTRADA

Já vou de romeiro, que é bom caminhar
Já rezo na estrada, já posso pensar:
P'ra quê tanta proa, porquê tantos medos
Se a vida se esvai num estalar de dedos?

Relva, 2015-01-17
IR Aníbal Raposo

sábado, janeiro 10, 2015











IRMÃOS

Um Raul e outro Jorge,
Saídos do mesmo alforge,
Santos à sua maneira.
Tecem-me os sons nesta lida.
Dois irmãos meus, dois romeiros
Gente boa, companheiros.
Um é anjo de ladeira
Ao outro devo-lhe a vida.

Relva, 2015-01-10
Aníbal Raposo

Singela homenagem a duas almas singulares.














CAFÉ

Sei bem quem és, meu amigo
Que te cuido na fajã
Podes crer que não consigo
Passar sem ti, de manhã

Divino aroma, alegria
Sabor que me põe desperto
No desafiar do dia
Com vigor, de peito aberto

Relva, 2015-01-10
Aníbal Raposo

quinta-feira, janeiro 08, 2015




















HAIKAI

Afirmam que cai?
Que no inclinar se aguente.
Ao prumo se é gente!

Relva, 2015-02-08
Aníbal Raposo

quarta-feira, janeiro 07, 2015



















NOTAS DE PALHAÇO

Ao libertar suaves notas calmas,
Sons de finados, filhos do cansaço.
Senti que se fundiam brandas almas
De seres sensíveis com semblantes de aço.

Dia após dia, penso no que faço
Nesta sombria, suja e fria esquina.
Levar à cena a pobre e nobre sina
De risos vender. Eu, triste palhaço.

Possuo maleitas que não têm cura
E embora enfrentando uma vida dura
Mantenho esta fé, flor do meu jardim

De gozar o sonho, mesmo que imperfeito,
Que me adoça a vida, que me aquece o peito:
Manter esta graça de me rir de mim.


Relva, 2015-01-07
Aníbal Raposo

terça-feira, janeiro 06, 2015


























RACISMO

Se imergisse meu amor
No preconceito da cor
Nauseabundo e abjeto
Pintava a cara de preto

Se em cada coloração
De rosto não visse um irmão.
Vou dizer, para ser franco.
Pintava a cara de branco


Relva, 2015-01-06
Aníbal Raposo

domingo, janeiro 04, 2015



















ELOGIO DA CHUVA

Não gosto de desertos
Desses lugares estéreis e inóspitos
Onde se faz o pranto às novidades
E não se fantasiam notícias redentoras.

Ao invés, gosto de caminhar, serenamente,
À descoberta dos altos cumes das montanhas
Onde se tecem gestações de tempestades
De rios impetuosos e de chuvas criadoras.


Relva, 2015-01-04
Aníbal Raposo

sexta-feira, janeiro 02, 2015



ESBAT

Querem-me aqui?

Prendam-me bem que me sorvem luas cheias.
Atem-me pesos de chumbo nestes pés gajeiros.

Senão, vou-me nos ventos.
Nos mesmos que incham
Os panos dos veleiros.


Relva, 2015-01-02
Aníbal Raposo








DUNAS

É no calor febril das dunas
do teu corpo que enlouqueço.

No recato dos teus oásis
a minha eterna sede mato,
danço contigo e adormeço.


Relva, 2015-01-02
Aníbal Raposo

Foto de Simon Chaput
ALGUMAS NOTAS

Abre bem os olhos
E estremece quando ouvires
O som da iniquidade.

Relva, 2015-01-02
Aníbal Raposo

Foto de Mumin Kurtulus

quarta-feira, dezembro 31, 2014















PASSAGEM DE ANO

Mais uma benta
Volta ao sol.

Saudemos a seguinte
Em rija festa.

Depois tiremos uma sesta
No paiol.

Relva, 2014-12-31
Aníbal Raposo

sexta-feira, dezembro 26, 2014
















ENLACE

Deus nos dê um dia
Livre, leve e lindo
De contentamento

Que brote alegria
Paz e amor infindo
Deste casamento


Relva, 2014-12-27
Aníbal Raposo

terça-feira, dezembro 23, 2014

















MENINO JESUS

Bendito Jesus divino
Tem piedade de mim...
Não devias ser menino?
Porque te mostras assim?


Relva, 2014-12-23
Aníbal Raposo




















EXISTÊNCIA

Há muito para ser pensado
Ao olhar um mar estanhado
E uma cadeira vazia.

Basta soltar os sentidos,
Abrir os nossos ouvidos
E atentar na magia:

Dos mil matizes das cores,
Do perfume que há nas flores,
Do despontar da poesia,

Do milagre da existência,
Do dom de ter consciência,
Da bênção do dia a dia.


Relva, 2014-12-23
Aníbal Raposo

segunda-feira, dezembro 22, 2014


























A TERCEIRA GEMA

como um barco triste
cujo mastro saiu
do justo prumo

assim sou eu
plantado numa praia a norte
ansiando a hora sexta
da próxima maré

Relva, 2014-12-22
Aníbal Raposo

domingo, dezembro 21, 2014





















ORAÇÃO PELA DIFERENÇA

Que seja sempre possível
Sonhar com ondas que quebram
Em mares serenos de mel

Relva, 2012-12-21
Aníbal Raposo

Foto de Mehrdad Motejalli - Irão

sábado, dezembro 20, 2014


TOCATA E FUGA

Quando vejo a ignorância
A fluir de lés-a-lés
Fico aflito, numa ânsia,
Fujo logo a sete pés.
Se vislumbro o preconceito
Na boca dum ser mesquinho
Eh rapaz, pego direito,
Raspo-me num instantinho
Meias-verdades, boatos?
Caio em atroz desespero
Dou logo corda aos sapatos
Pernas para que vos quero
Paleio de demagogo?
Cavo dali para fora
Dou às de Vila Diogo
Pego em mim e vou-me embora


Relva, 2014-12-20
Aníbal Raposo

sexta-feira, dezembro 19, 2014


REDUTO

Assim te aconselho a ser:
Coração a descoberto
Pensamento livre e aberto
Dando o que tens para dar.
Mas se quiseres ser arguto
Deixa um pequeno reduto
Onde podes aceder
E ninguém mais deve entrar.

Relva, 2014-12-19
Aníbal Raposo

Foto de Elliott Erwitt

quinta-feira, dezembro 18, 2014





















ABALADAS

Quando apronto a mala para partir
Dou sempre pela gaivota do costume
Nela poisada. Tranquilamente
Disposta a largar comigo.

Relva, 2012-12-18
Aníbal Raposo

Foto de Anka Zhuravleva

sábado, dezembro 13, 2014
















RELÓGIO

Na minha velha parede
tenho um relógio. Os ponteiros
rodam sempre tão ligeiros
que não sei se o tempo mede.
E aqui quero confessar
uma estranha sensação:
na mecha louca a que vão
não os consigo enxergar.

Saudades tenho. Obcecado,
não me vejo a decidir,
se dos dias que hão de vir
se do que já foi gozado.
Vivo pois neste esconjuro
de saber, tempo malvado,
se corres para o futuro
se voas para o passado.

Relva, 2014-12-13
Aníbal Raposo

sexta-feira, dezembro 12, 2014



DO SABER OUVIR

Há gritos lancinantes
amordaçados
nos silêncios
cúmplices.


Relva, 2012-12-12
Aníbal Raposo

quarta-feira, dezembro 10, 2014

JINGLE BELLS

Nadam uns tantos na fartura.
Apertam outros a cintura.
Talvez surja uma desordem,
Até é justo que acordem.
Ladram para quê se não mordem?

Relva, 2012-12-10
Aníbal Raposo

quinta-feira, dezembro 04, 2014

























CORPOS CELESTES

Enquanto céus puder edificar
Hei de plantar luas de prata em mares azuis safira
Semearei estrelas em prados infinitos
E desenharei anéis, cheios de brilhantes,
Para fazer notar, como é devido,
Os corpos celestes.

Relva, 2014-12-04
Aníbal Raposo

quarta-feira, dezembro 03, 2014

Cais


























CAIS

Tanto a contar
das chegadas

alegres...
amarguradas...

Mais a dizer
das partidas

sonhadoras...
tão sofridas...


Relva, 2014-12-03
Aníbal Raposo

Foto de Amanda Cass

terça-feira, dezembro 02, 2014




















CASOS

Atenta
Meu menino lindo
Nesta minha história.

Mais tarde,
Quando a contares,
Estarei contigo.

Há sabores de açúcar
Na memória.

Relva, 2014-12-02
Aníbal Raposo

Pintura de Roberto Chichorro

domingo, novembro 30, 2014




















INTERROGAR COM ARTE

Reconheço
humildemente
a minha pequenez.

Mas será
que a minha alma
cabe aqui?

Relva, 2014-11-29
Aníbal Raposo

sábado, novembro 29, 2014



DERVICHES

Poesia,
música,
dança,
e humildade

no rodopio
do mundo. Uma via
para sondar a divindade.

Relva, 2014-11-29
Aníbal Raposo

Foto de Celil Advan