quinta-feira, fevereiro 20, 2020



















ESTRADAS

Fico com a alma lavada
Quando termino o meu dia
Com uma boa caminhada
Nas estradas da melodia.

Aníbal Raposo
2020-02-20

Foto de Fiddle Oak

sábado, fevereiro 01, 2020


























A GESTAÇÃO DA MUDANÇA
A ideia prima
que lesta me surgiu
foi riscar bem fundo
num espelho de água
a palavra Verdade.
E assim criar um sismo,
pai dum maremoto,
capaz de submergir,
de forma permanente,
as margens da indiferença.

Relva, 2020-01-31
Aníbal Raposo
(imagem de Arno Rafael Minkkinen - Self-portrait, Foster's Pond, 2000)

sexta-feira, janeiro 31, 2020





















POESIA

Onde há vida
a poesia é.

A arte do poeta
consiste, simplesmente,
em revelá-la aos mais distraídos.


(No dia mundial da poesia)

Relva, 2016-03-21
Aníbal Raposo

quinta-feira, janeiro 30, 2020



















DESEJO
Voa devaneio meu
nas asas soltas do vento
e roça as ondas deste mar cavado
onde semeio o meu desassossego.
Voa, sem medos e liberto,
pois é sempre do ar que se vislumbra
a toca do saber, que é presa esquiva,
e os ramos onde se ocultam na folhagem,
os frutos mais saborosos da loucura.
Depois repousa, no fruir
da emoção da caça
e do morder dos pomos.
Descansa,
que Deus, que é Deus,
também o fez.
E procura o melhor poiso para o efeito:
a segurança da âncora das boas memórias.

Relva, 2020-01-31
Aníbal Raposo
(Wish - foto de Tommy Ingberg)

segunda-feira, janeiro 27, 2020















POENTE


Hoje
Vou deixar girar a mó.
Não me posso sentir só
Neste cantinho.
Ouve,
Tenho em frente um oceano.
Na cabeça o doce engano
Dum bom vinho.

Fez um belo entardecer.
O pôr-do-sol foi de morrer.
Uma nuvem de estorninhos.
Fim do dia.
Na cara um vento tão quente,
A lua em quarto-crescente,
E os cagarros dão-me tanga
Em sinfonia.

Hoje
Liguei à ilha montanha.
A linha aqui sempre se apanha
Por um triz,
Sorte! Consigo comunicar!
Liguei só para informar
Que sou feliz.



Aníbal Raposo
Rocha da Relva




























Estou aqui nesta mornaça,
Tenho a voz um pouco baça
Anda no ar uma graça,
Que é mulher.
Faço cantigas à toa.
Oh Natália dá-me a loa.
Que a poesia é coisa boa
E p’ra comer.

Hoje
Estou sozinho na fajã.
E bem sei que amanhã
É um novo dia.
Sigo
Aquela estrela cadente.
Há um cheiro aqui presente
A maresia.

O tempo corre devagar.
As uvas estão a pintar.
A vindima será boa
E estou contente
Fico para aqui pensando
(Já nem sei se estou sonhando...)
Que há um gosto amargo-doce
No poente.





terça-feira, janeiro 21, 2020





ORAÇÃO AO SENHOR SANTO CRISTO
(escrita a pedido do irmão romeiro Flávio Moniz)
Oh meu Senhor Santo Cristo A Vós elevo o meu canto Abençoa o nosso rancho Cobri-nos com o vosso manto Seja Bendita e Louvada Vossa Paixão dolorosa Morte cruel e a seguir Ressurreição gloriosa Oh meu Senhor Santo Cristo És luz dos nossos caminhos Queremos pedir perdão Por essa coroa de espinhos Pelo sangue derramado Nessa face abençoada Libertai-nos do pecado Nesta vida atribulada P'los açoites que Vos deram Nós Vos pedimos perdão E caímos de joelhos Em ato de contrição Perdoai por cada chaga No Vosso corpo, p'la dor, Cada uma representa Uma afronta a Vós Senhor As Vossas mãos amarradas Na flagelação, no suplício Espelham nossos pecados O fundo do precipício Cada oração que rezarmos Nas contas deste rosário Servirá p'ra recordarmos Senhor o Vosso Calvário Perdoai-nos bom Jesus De Vós termos escarnecido Nós somos a Vossa cruz Compaixão meu Deus querido Oh meu Senhor Santo Cristo Termino a minha oração Nesta nossa caminhada Deitai-nos a Vossa bênção


Relva, 2020-01-20
Aníbal Raposo

terça-feira, dezembro 17, 2019















DA INSTRUÇÃO DAS ALMAS


Se alguma vez virares a cara
a algum incómodo escarcéu
gerado pela suposta diferença,

admite a hipótese de estares a ouvir
os rumores de almas cristalinas,
velas de navios improváveis
no teu imenso oceano
de apatia.

Já pensaste,
na remota possibilidade
de terem escolhido assim nascer,
a fim de despertarem nas demais
o espantoso dom da compaixão?

Relva, 2019-12-17
Aníbal Raposo

quarta-feira, dezembro 11, 2019













ESPERANÇA

Seguro a tua mão
pra demorar a vida
que juntos dividimos.
Estamos todos ligados,
só assim faz sentido...
Passeia mais um pouco,
com quem tanto te quer,
neste jardim florido.
A eternidade espera,
ela é dona do tempo...
Que os teus olhos se acendam
e partilhem connosco
o choro da alegria.
Que as mãos de Deus te amparem
nas curvas do destino.

Aníbal Raposo
2019-12-11













SEM RIMA

Nos versos que urdo
a métrica e a rima
jamais são grilhetas.
O meu verbo é solto.
Fluem, naturais,
sem partos difíceis.
Duas almas gémeas
em passeio alegre.
Construo com elas
poemas já prenhes
dos sons e dos tons
que os hão de vestir.

Relva, 2019-12-07
Aníbal Raposo

sexta-feira, dezembro 06, 2019





















DA GRADUAÇÃO DOS BEIJOS

Ao logo da minha vida,
que eu vivi, bem vivida,
recebi alguns beijinhos
delicodoces, meiguinhos.
E tive muitos ensejos
de receber ricos beijos.
Espaçadamente um "chupão".
Digamos que era um beijão.
Bem sei que é "tipo" uma prática
mas em louvor da gramática
não me enviem, de verdade,
beijinhos grandes.
Piedade!

Relva, 2019-12-06
Anibal Raposo

quinta-feira, dezembro 05, 2019
















DO SEMEAR E COLHER
(sobre as mensagens de aniversário recebidas)

Se nas artes sou fecundo,
a maior, tenho sentido,
é o carinho, profundo,
de amigos de todo o mundo.
Confesso, estou comovido.

E daí o entender
que quem semeia, à vontade,
afeição, sem perceber,
acaba sempre a colher
frutos da sua amizade.

Amigos, do coração,
com ideias, cores e matizes
diversas, são uma benção.
Façam o favor então
de amar e serem felizes!

Relva, 2019-12-05
Aníbal Raposo

sexta-feira, novembro 01, 2019


A vida é um rio.

Nasce na montanha,
onde a água é pura.

E põe-se a caminho
porque anseia o mar.

Cresce com os amigos,
os seus afluentes.

Vai contanto as pedras
na sua viagem.

Acomete as margens
porque há tempestades.

Cai em cataratas,
há despenhadeiros.

É lesto nos rápidos,
sente o tempo escasso.

Espraia-se em planícies,
folgas de guerreiro.

E sonha um sorriso
À vista da foz.

Aníbal Raposo
2019-11-01

terça-feira, outubro 01, 2019













ABC DESORDENADO
Meus pais e avós são relvenses
E tenho mais, de outras eras,
Quando sais a quem pertences
És puro, não degeneras.
Um trisavô Umbelino
Pelouro da Atouguia
Também de Melo e Machado,
De tudo o mais que ele queria...
Uso sangue de Salgado
De Medeiros e de Ferreira
De Duarte, de outro lado,
Vermelho, à minha maneira.
Faço cantigas à toa
Sem pretender agradar.
A benção quero pedir
A quem passo a nomear:
Ao grande Zeca Medeiros
Aqui saúdo, em primeiro,
Um artista com A grande
Bom amigo e companheiro
A benção, Luís Alberto
Parceiro de caminhada
Benção Paulo que és seu filho
Ben-David, alma lavada.
A todos os Bettencourt,
Nome ligado à magia,
Ao Luis Gil e ao Nuno
Ao Emanuel e à Maria.
Ao irmão Luis H.
Ao das Manadas, Renato,
Mirinho da Graciosa,
Zeca Sousa, a quem estou grato.
Ao meu irmão Zé Duarte
E ao Marinho Mariante
André e Raul Damásio
Ao Jaime Goth, neste instante.
Benção Gil, Luisa Alves,
Benção Marina Vieira
António, Gente da Ilha,
A benção p'rá vida inteira.
A bênção família Andrade
À Paula, ao Pedro e à Rita
Sandra Medeiros, ao Sílvio
À Carolina, bonita.
A benção Roberto e Ernesto
Pela Ronda da alegria
Benção, grande António Sousa
Todos de Santa Maria.
Benção Bruno e Oliveira
Emílio, Pedro e Mourão
E a outros mais da Terceira
Aqui deixo gratidão.
Ao Victor Castro, afilhado,
Ao Antero, compositor,
Ao Kit, António Bulcão
E ao Bruno Walter, cantor.
Ao Mario Raposo, é claro
Zicaman aqui me traz
À Maria do Amparo
Carlos Moniz, Duarte Braz.
Ao outro Mario, o Cabral
Helder, António Feijó
Paulo Andrade e irmãos Lima
João e Jorge, e não só.
Ao Carlos Sousa, Capelas,
Amigo de toda a hora,
À Anita, mãe e irmã,
E a todos do Belaurora.
Hermínio Arruda, partido,
Manuel Ferreira, lembrado,
Aos Frazão(*) que eu não olvido
Tenho todos ao meu lado.
Às vozes de ouro, cantoras:
Helenas (**), Vania, a encantar,
BiaSãoMaria Antónia
Susana, Pié (***), Pilar.
Paulo Vicente, Pracana,
Mike, Maninho e Paulão
Lídia, Eduardo Botelho
Ricardo Reis e Cristóvão.
Da ilha de São Miguel
Alfredo Gago e Dinis,
Aos dois manos Pimentel,
Ao Massa, ao Manuel Moniz.
Ao Pedro Silva, da Relva,
Terra linda, dos meus genes.
Também a peço aos Tributo
Dos Severinos e Enes.
Aos Rafaeis dos Açores
Um Fraga o outro Carvalho
Ao Álvaro e ao irmão Ricardo
Sílvia Torres p´lo trabalho.
A benção Manuel Francisco
Do Pico, terra do vinho,
Ao Zé Ferreira, partido
E ao Manuel Canarinho.
Também ao Hugo Araújo
Carlos Medeiros que escutei
Ao vate Victor Rui Dores
Com quem muito naveguei.
A bênção ti Pedro Cepo
Penso não fazer estorvo
Foi um prazer conhecer-te
Cantor e artista do Corvo.
Bárbaras(****) de duas ilhas
À Marta, voz de cristal
Ao Wellington e Odilardo
Hélio e todo o pessoal.
A benção aos novos valores
Sara Cruz, F. Frazão
Ao BairosSara Miguel,
À Mariana e ao Cristóvam.
Bênção Balada Brassado
Pela tua inteligência
IsabelJoão Moniz,
Saudade na vossa ausência.
E aos que aqui não nomeei
Eu peço compreensão
Mas creiam que tenho todos
Dentro do meu coração.

Aníbal Raposo
2019-09-28
(uma singela homenagem à música açoriana)
(*) os Frazão - Teófilo, Carlos e Emanuel Frazão
(**) - A outra Helena é a Azevedo
(***) Pié - Piedade Rêgo-Costa
(****) Bárbara Moniz e Bárbara Azevedo

















MÚSICA

Juntei ritmo e harmonia
Com vivência, fez sentido,
Emoções e melodia,
Tive o céu no meu ouvido.

Aníbal Raposo
(no dia mundial da música)

quinta-feira, maio 16, 2019


























GRAVATA

Há quem te pendure
à volta do pescoço
na vã esperança
de comungar
da derradeira sensação
do pendurado.

Relva, 2019-05-16
Aníbal Raposo