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(Sónia Serrano)

POEMA PARA UMA SIMPLES TÁBUA NUM NAUFRÁGIO

Como dois náufragos
Agarrámos em desespero
Uma pequena prancha de poesia
Que ousava flutuar
Nas turbulentas águas
Das nossas vidas, roxas, implodidas.
E quase nos afogámos
No mar de fel dos ressentidos.

Contudo, não submergimos…

Crianças de neve e aves de cristal
Em nós já despertavam.

Adivinhava-se um marulhar de ondas, num sussurro,
Prometendo perdoar longas ausências
E troçavam da escuridão dos nossos medos
Os risos sarcásticos dos melros pretos da fajã.

Em cada madrugada,
Para nosso encantamento,
Acordávamos com os olhos verdes.

E ríamos com os melros, pousando nos incensos,
Espreitando, a tempo, vindimas temporãs
E pragas de rocheiros.

Caíamos a pique, falésia abaixo,
Na vertigem libertadora dos queimados.
Como o vento do norte
Lavrávamos o mar
E feríamos com gumes afiados de navalha a cara dos incautos.

Era aí que respirávamos a paz das almas simples.

Aníbal Raposo
Porto, 5 de Maio de 2008