quinta-feira, abril 21, 2011



25 de Abril

Era a liberdade que subia os Aliados,
Em sucessivas vagas, nas nossas mãos contida.

Arremessava os paralelos da raiva e da esperança
Que choviam sobre a hidra encurralada
Entre os edifícios da Câmara e dos Correios.
Pedras contra balas! Mas os nossos corações,
Esses, já se alegravam na certeza da vitória.

E eis que chegam os comandos de Lamego,
G3 em punho, de rubros cravos enfeitadas.
Juntam-se a nós, compartilhando a fúria de alegria!

Os agentes da polícia, fiel ao pútrido regime, desmoralizados,
Atiram-se de qualquer forma para o interior de carrinhas
Que voam ligeiras na avenida, de portas laterais escancaradas,
Protegendo-os da ira popular na desordenada fuga .

Já fogem, já fogem!

E os nossos olhos marejados de lágrimas
Brilhavam como tições ardentes na fogueira da mudança.
Nas nossas bocas rasgavam-se risos abertos, francos, infantis.
E recebíamos abraços efusivos de estranhos próximos, na bebedeira da vitória.

Era a Santa Liberdade que chegava.
O povo unido nunca mais será vencido!

...

Podem agora tentar desconstruir
E espezinhar tudo aquilo em que acredito.

Jamais conseguirão apagar essa grandiosa tela,
Porque que a guardarei perenemente,
Pintada de fresco na minha memória.
Para sempre!

Ponta Delgada, 2011-04-21

sábado, abril 02, 2011



PREPARANDO A CAMINHADA

Hoje levantei-me cedo.
Quis andar um pouco e respirar o ar puro da fajã.
Deslumbrei-me, como acontece a cada ano,
Com despontar dos tenros abrolhos das videiras.
Fui despedir-me do canto familiar dos pássaros
E do embalo sonoro das ondas do oceano.

De hoje a oito dias, em caminhada de fé e oração,
Ao percorrer os santos caminhos desta ilha verde,
Intensamente perfumados de hortelã e incenso,
Terei a oportunidade de me reencontrar comigo.

Com a barba crescida de romeiro
Serei apenas um entre os irmãos.
No rasgar de todas as máscaras
Restará a fragilidade dum homem
Que procura Deus.


Relva, 2011-04-02