sexta-feira, janeiro 28, 2005




FADO MARUJO

O fado fez-se ao mar nas caravelas
Despediu-se do Tejo e fez viagem
Cantou-o p'lo convés a marinhagem
Quando no céu acordavam estrelas

Saudades amargou de seus amores
Adoeceu febril e quase morto
Quando já não pensava encontrar porto
Foi quando achou descanso nos Açores


O fado ganhou sotaques diferentes
No falar das nossas gentes
Qual deles mais engraçado
É que o fado, mesmo fora de Lisboa
Se mexe com uma pessoa
Nunca deixa de ser fado


Como era marujo e atrevido
Andou com uma viola de paixões
Mas tendo ela já dois corações
Tomou outra de amores e foi corrido

Alguns afirmam mesmo ser verdade
Que nunca se refez desses amores
Tornou-se vagabundo p'los Açores
E de tanto chorar fez-se Saudade



Aníbal Raposo
Dezembro de 1989

quinta-feira, janeiro 13, 2005


Meditation on the harp
Salvador Dali


O QUE ME DÓI EM TI

O que me dói em ti
É esse teu desapego
Esta enorme distância
De estar tão perto

Dói-me tanto esta rotina diária...
Desde que o murro do despertador
Me tira do mundo dos sonhos
Até ao teu beijo gelado de boas-noites

Dói-me cada palavra que gastámos
Na incontornável usura do tempo
Fere-me sempre o muro da tua página de jornal
Na benção de cada domingo

Aníbal Raposo
2000

segunda-feira, janeiro 10, 2005




DESPEDIDA

Como voltar sem te perder nesta viagem?
Como fazer p’ra te matar dentro de mim?
De cada vez que apunhalo a tua imagem
Tinjo o meu peito com meu sangue carmesim...

Como afastar o que nasceu p’ra ser unido?
Como furtar dum céu azul o astro-rei?
Como expulsar a tua voz do meu ouvido?
Como dizer ao coração que cumpra a lei?

Como viver com teu fantasma em minha casa?
Como varrer da minha pele o teu odor?
Como enterrar-te, de uma vez, em campa rasa?
Como é que eu faço? Diz-me tu, oh meu amor...


Lisboa
2003-07-02