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A mostrar mensagens de Fevereiro, 2015
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DO DÓ

Olhem só
este ser indómito
desatando um dó!

Relva, 2015-02-27
Aníbal Raposo
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GUITARRA

Toco-te
e de cada vez que o faço
tenho a sensação intensa e leda
de inaugurar uma manhã
bela e radiosa.

Abraço-te
como quem cinge
um corpo delicado,
e estreia uma paixão
novinha em folha.

Relva, 2015-02-26
Aníbal Raposo
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UM BREVE INSTANTE

Já toquei a linha do esquecimento
tendo aprendido o sentido primeiro
desta vida: fruir cada momento
porque ele é singular e derradeiro.

Relva, 2015-02-24
Aníbal Raposo
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O CAIS DAS SETE PARTIDAS

Ler bons livros é largar
Do cais das sete partidas
E em escassos momentos
Conseguir reencarnar
Somando conhecimentos
Dum mar de vidas vividas.

Relva, 2015-02-22
Aníbal Raposo
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ABRIGO

Com céus de breu
venha um chapéu,
um ombro amigo.

Nada melhor
do que dispor
dum bom abrigo.

Relva, 2015-02-20
Aníbal Raposo
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DIA DE SÃO VALENTIM
Querida Helena, Hoje não vale mesmo a pena,
é dia adverso.
Amanhã,
pela manhã,
faço-te um verso.
Relva, 2015-02-14
Aníbal Raposo
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ENTRUDO

No Carnaval consigo apreciar
danças de espada,
bailinhos,enredos,
fantasias.

Desagrada-me dançar com multidões.
Na turba há qualquer coisa
que tolhe o pensamento.

Não prezo também
os dias de.
Nem que me prometam festa
p'ra me calcarem calos.

Quando me apetece chorar, choro.
Se me apetece rir, rio.
Quando e se.

Não me embriago
de Entrudos.

Basta-me o Carnaval
de cada dia.

Relva, 2015-02-14
Aníbal Raposo

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CONSTRUTORES DE CATEDRAIS

Há quem erga catedrais
sobre as falésias, junto ao mar.
As torres buscando os céus.

Sábios pedreiros.

Sede de luz!
Da voz de Deus!

Relva, 2015-02-13
Aníbal Raposo
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DA SIMPLICIDADE

Mas que vista tão singela:
- uma árvore e uma capela.

Numa ramos p'ra poisar
Noutra paz para rezar.

Ali estão sem sobressalto
Apontam ambas ao alto.


Relva, 2015-02-13
Aníbal Raposo
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PAZ PODRE
(Leitura possível duma fotografia)

Houve alguém que suspendeu
usando de arte secreta
o fluir da areia fina
no gargalo da ampulheta.

Quem muita vida viveu
e lê os sinais da sorte
duma completa acalmia
só espera um sismo forte.

O artista e o contrabaixo,
vivem enorme paixão.
Tensões fortes e latentes
dividem o corvo e o cão.

Entre o artista e o corvo
vão só uns metros de chão.
Entre o perro e o instrumento
não se alcança ligação.

Há um contrabaixo e um corvo
mas não há magia, não.
Vejo um cão e um artista
mas não se nota afeição.

A ruína e o poeta
partilham a inquietação.


Relva, 2015-02-12
Aníbal Raposo
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AVERSÕES E AFETOS

Nunca gostei de correntes
Abomino cadeados
Prezo as almas transparentes
Amo anseios libertados

Relva, 2015-02-12
Aníbal Raposo
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DOS SIGNOS

Pelo dia e mês
final e derradeiro
em que ao mundo cheguei
sou por metade gente:
- um rijo arqueiro
que envolto em feroz halo,
viril empunha o arco,
atira aos céus a flecha
e logo segue lesto.
No resto
sou cavalo...

Pelo ano, porém,
e pelo sinete que advém,
do velho e sino signo,
de pronto me resigno:
sou ginete...

Nascido Sagitário
já me juram que os astros
guardaram só bondade
para a minha criatura:
- ser positiva e sincera,
amar a liberdade,
gostar de viajar
prezar uma aventura.

Porém, de quando em vez,
vejo-me a erguer a espada.
Sem que haja um bom motivo,
atiro uma patada
e ponho-me ao estalo.

Isso é pouco cortez.
Admito ser errado.
Mas logo retratado,
a contrição rezada,
pisado sobrevivo.

Reajo assim, emotivo,
e falho por ser gente.
Mas gosto de estar vivo.
Possuo sangue quente,
e dois signos de cavalo...

Relva, 2015-02-10
Aníbal Raposo
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UM VELEIRO NOS TRÓPICOS

Um veleiro nos trópicos buscando ternas angras.
A sensual beleza dum corpo de mulher.

A lasciva humidade que atiça a fantasia.
A tumidez da carne, em gritos de clausura,  
Velada em escassos véus num jogo de adivinhas.

As narinas abertas, ansiando odores dementes.
Um vulcão incontido, a erupção prevista.


Relva, 2015-02-09
Aníbal Raposo
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OLHARES

Onde houver gente
A melodia está presente.

E o que sentimos
Poderá ser agudo ou grave
Basta escolher a chave.

Relva, 2015-02-07
Aníbal Raposo

Foto de Harold Feinstein,
Sheet Music Montage, Coney Island, 1950
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DA ARTE DA PODA

Como pensar conter o poder do raciocínio?
As ideias
são como ramos novos
que brotam irreverentes
nas erupções da mente,
perene árvore do espanto.
Bem sei
que sempre hão de existir
inquisidores de serviço,
de pena e foice em riste.
Gente que domina e aprecia
a afiada e bem retribuída arte do sufoco.
Mas para o bem
do equilíbrio universal,
há sempre ideias-ramos que resistem: - À fúria das mentes castradoras.
- À cegueira das tesouras de podar.
Relva, 2015-02-07
Aníbal Raposo
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ARCO DE TRIUNFO

Por que razão
é celebrada
a glória em arco?

Para lembrar
como é fugaz,
e em breve cessa?

Nasce no chão
aponta ao céu,
e ao chão regressa...

Relva, 2015-02-06
Aníbal Raposo
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TONS Entre o que é preto e branco,
moram cinzentos vários.

O tempo é sábio. Revela gradações
diversas em firmes certezas.

Gosto de pensar
que, numa vida repleta de sons,
consegui distinguir fortes mudanças
escondidas em quartos de tom.

Relva, 2015-02-05 Aníbal Raposo
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DA PARTIDA

Não conheço as coordenadas
do lugar para onde vou.

Nem vos posso assegurar
a hora em que o farei,
mas sei que vou partir.

Conforta-me a ideia
de ter um cais por perto.

É avisado ter a alma
pronta, no içar das velas.

Rezo para se faça com mar chão.


Relva, 2015-02-05
Aníbal Raposo
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A CASA SINGULAR
Gostava de erguer uma casa singular num imenso campo verdejante, ponteado por alvos malmequeres.
Uma casa de janelas amplas,  com vista para rasgados horizontes.
Numa das fachadas, montava a roda do tempo. Livre. Do seu aleatório avanço ou retrocesso, resultariam, à vez, choros abundantes ou desbragados risos. 
No teto, vários caça-raios. Sempre que os captasse, encaminhava-os para alumiar as salas mais escuras do meu atribulado espírito.
Receberia os meus amigos em dias de chuva para lermos em conjunto as pautas da mudança desenhadas no céu, nas nuvens de vento da poesia.
No quintal da casa manteria sempre ao sol, bem arejado, o estendal da roupa que agasalha os meus desejos.

Relva, 2015-02-04 Aníbal Raposo
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DOS PAVÕES

A coisa que mais odeio
É ver uma besta quadrada
Que se exibe em  pavoneio
Pisando terra queimada.

Relva, 2015-02-02
Aníbal Raposo