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A mostrar mensagens de 2012
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NOVO ANO

Precipito-me para este voo
como se deixasse o ninho
pela vez primeira.

Alguém tingiu as nuvens de preto
e colocou um assobio na boca do vento.

Parto num susto
mas já desembainhei a esperança.

Aníbal Raposo
Relva, 2012-12-31
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NATAL

São três as mãos
estendidas. Irmãos
translúcidos. Sombras num mundo insensível
que se agarra ao que é vão, fútil, perecível.

Que se esquece da dor, negro destino,
estampada no rosto de cada Deus Menino.

Aníbal Raposo
2012-12-20
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A ARTE DE VOAR
Suave brisa,
ondulante,
quase não pisao chão. Flutuante,
enceta um voo que dramatiza
o amor. Num breve instante,
e em equilíbrio instável, eterniza
a linda arte de dançar. Desconcertante... 

Aníbal Raposo
2012-12-09


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CANTO DE AMOR E DE RAIVA
Muito padece de amor aquele que ama A manhã dos olhos teus atiça a chama Não me vou se Deus quiser Sem a alegria de ver Um enorme sol a arder Na nossa cama
Em cada gesto teu há claridade Em cada sorriso alvo uma saudade Neste fogo abrasador Sei-te bem, sei-te de cor Voemos pois meu amor Em liberdade

Pela barca portuguesa o povo teme Nesse mar que se agiganta o casco geme Não temos porto de abrigo
Ver um rumo não consigo Nesta nau em desabrigo Não há leme
Muito mal vai um país que os filhos drena Brota de novo feroz a vil gangrena Não posso, não me demovo, Há que fazer que de novo Volte a ser o nosso povo Quem ordena
Aníbal Raposo Ponta Delgada, 2012-12-01
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SEI DUM POEMA

Eu sei dum poema louco
Nascido dum grito rouco,
Que por pouco
Não calou.

Também dum poema pomba,
Alva, branca. De mim zomba.
Sonho-bomba
Que estourou.

Sei do poema indigente,
Tingido de inteligente.
Do demente
Que alucina.

Do poema que não diz,
De feiticeiro aprendiz,
Meretriz,
E concubina

Sei do poema matreiro,
Velado, mas verdadeiro,
Sorrateiro,
Que desperta.

Amo o poema, que arrasa
Vento, fúria que extravasa,
Golpe de asa,
Que liberta!


Aníbal Raposo
Relva, 2012-11-23
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QUANDO O TEU OLHAR

Quando o teu olhar
Dirigido a mim
Disser: Sim !
Vou fugir depressa
Para que esqueça logo
Os sonhos que me vão pela cabeça
Porque eu não posso dar ao meu peito
Nem a chance de te amar

Mas se o teu olhar
Por qualquer razão
Disser: Não !
Vou ter pesadelos
Arrepelar cabelos
Porque belos foram
Sonhos e desvelos
Porque os castelos no ar que erigi
Vão ruir com o teu olhar

Aníbal Raposo
1989 
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QUADRAS NO DIA DE S. MARTINHO

Trabalhei desde manhã No dia de S. Martinho Nem sequer fui à fajã Provar o meu rico vinho
Pareço um tipo de antanho (Oh palerma não descansas?) Trabalho tanto e o que ganho Vou entregar às Finanças.
É trabalhar, trabalhar Sem ter do corpinho dó Para depois sustentar Muito burro a pão de ló
Aníbal Raposo Relva, 2012-11-11
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AOS PRESENTES

Partiram?
Quem partiu?
Os que largaram amarras
São os que continuam firmes
Para nosso alento
Bem aqui ao lado.

Partiram o quê...
Na verdade
Só se parte
Quando se entra,
De forma perene,
No soturno vale
Do esquecimento.

Partiram?
Para onde?
Não me basta cerrar
Os olhos por breves segundos
Para os rever tão vivos
Mesmo à minha frente?

Partiram?
Porquê?
Quiseram libertar espaço
À formosa árvore
Da aprendizagem
Para estender os ramos?

Partiram?
Como?
Se com eles continuo
A partilhar diariamente
Cada singela dúvida
Da minha existência.


Aníbal Raposo
Relva, 2012-11-01
(em véspera de Finados)

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OS CARNEIRINHOS
Os carneirinhos tão engraçados Vão  p'ró redil com mil cuidados.
Sempre em manada, que rica que é, Não dizem nada, fazem mémé.
Todos os anos os carneirinhos São tosquiados sempre mansinhos.
Distraidinhos, sem intenção, Entram um dia num camião.
Seguem fofinhos, são um tesouro, Alegrezinhos p'ró matadouro.
Quando, por fim, abrem os olhinhos Já é tão tarde vão p'ra bifinhos.
Muito maltratam os probrezinhos A linda graça dos carneirinhos.
E inda se lembram, sempre também, Dos seus paizinhos, das mães que têm.
Aníbal Raposo Ponta Delgada 2012-10-22
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A MORTE DO POETA

Há quem se vá,
Serenamente,
Deixando atrás de si o rasto brilhante
Da teia dos versos que inventou.

As palavras ficam.
Não fazem lutos.

São melodias escritas
Nas pautas onde o poeta,
Esse irascível mas fogoso amante,
Esboçou os sonhos.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-10-19
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CONSUMIÇÃO

Em contendas
De arrebatado amor
Perdemos a cabeça.

Ardemos os dois,
Em fogo alto.

Incendiamos
Corpo e alma
As árvores da vida
Que se erguem
Nos vales de seda
Dos nossos lençóis.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada 2012-10-14
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VIOLINO

Vibram cordas mágicas
Na pressão do arco
E os sons desaguam
Num mar de alvoroços

Esvoaçam pombas
À volta do músico
Absorvem felizes
A paz do momento

Conjunção
Perfeita

Poesia
Rara

Aníbal Raposo
2012-10-09

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DIFERENÇA

procura sempre
ser a pedra
insólita
que sobressai
na espuma dos dias
no imenso areal
das banalidades.

Aníbal Raposo
2012-10-01
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TANTO E TÃO POUCO

No tempo
Da nossa juventude
Os dias eram longos.
Julgo que tinham
O comprimento preciso
Dos nossos sonhos soltos
E largura das nossas amizades.

Intermináveis eram as tardes
Passadas no corredor
Da casa do Laurenio,
Velho e estimado amigo,
Preso à sua cadeira de rodas
Mas viajante experimentado
Nos mundos de devaneio
Que só a leitura nos podia abrir.

No corredor da sua casa
Da rua da Corujeira,
Sentados no chão,
E encostados à parede,
Atravessávamos num ápice
Altas montanhas,
Pradarias e desertos
Calvalgando com a destreza de cowboys
As páginas sujas e gastas dos livros
De aventuras, que rodavam
Por todas as nossas mãos.

Tínhamos tanto
E tão pouco.

Sobrava-nos tempo
Para enfrentar todos os desafios:
Como subir escadas de velhos moinhos
E até tocar guitarra
Ludibriando
As leis da gravidade.

Aníbal Raposo
2012-10-01
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OUTONO

Dourado e vermelho
Nas folhas, no sol
E no peito

No tom
E no jeito

Na imagem
Do espelho

Aníbal Raposo
2012-09-23
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DISCURSO DIRETO

Quando na TV te vi
Oh minha rica frieira
Senti só de olhar pr'a ti
Muito mais leve a carteira

És um grande patriota
E tens uma missão heróica
De joelhos, meu janota,
Lamber as botas à troika

Já não tens nenhuma graça
Já com rimas te fuzilo
Tu não vais morrer na caça
Vais ter é sorte de grilo

A gente já não te atura
Baza depressa, fedelho
Que ninguém enxerga lura
De onde saia coelho

Oh Passos, esses teus passos
São afananços, paspalho 
Colecionas fracassos
Tu, vai gamar p'ró Gabão

Aníbal Raposo
2012-09-07
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LIBERDADE

a casa
a vida
e o verbo

estupida-
mente
simples
porque
os sonhei assim
e assim os quero

república livre
dos homens
de voo fácil

concha fraterna
da perene claridade

respiradouro
de ar imaculado
por debaixo da bruma

pátria
da utopia
e da quimera
território amado

deslumbramento de olhos
na imensidão das águas
e dos céus estrelados

Aníbal Raposo
Relva, 2012-09-06
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TRAPÉZIO

Ninguém me vai aguentar
É o amor que me afogueia
Hoje é dia de voar
Mesmo em frente à lua cheia

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-08-31
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BOLA DE CRISTAL

Do país vejo o devir,
Com uma diferença. Acho
Que em vez de irmos a subir
Vamos pela encosta abaixo.

Ponta Delgada, 2012-08-31
Aníbal Raposo
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ILHÉUS

Ser ilhéu é estar só
No meio de muita gente
De nós ninguém tenha dó
Temos o mar pela frente…

É viver a liberdade
Em constante despedida
Já ter no lenço a Saudade
Antes de vir a partida

Saber cantar a folia
Saber benzer o quebranto
E dar vivas de alegria
Nas Festas do Espírito Santo

Também descer às fajãs
Beber da noite o luar
Apreciar as manhãs
E ouvir os búzios do mar

Não ter certezas nenhumas
Numa terra em convulsões
Acordar por entre as brumas
E adormecer nos vulcões

Seja qual for o momento
Ter calma, sermos serenos
Olhar bem o firmamento
E ver que somos pequenos

É pôr o sonho na mira
Estar em paz, mesmo na guerra
Saber tanger uma Lira
Numa viola da terra

Aníbal Raposo
2012-08-27

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LENDA DAS SETE CIDADES
Na Atlântida perdida Que pl’o mar foi engolida Em grandes calamidades Conta a lenda que existiu Um reino que se extinguiu Chamado Sete Cidades.
Tinha o rei, a senhoria, Deste reino, que regia, Uma filha muito amada (O tesouro da família) Dava pl’o nome de Antília Linda como a madrugada.
Era a filha o seu desvelo Porém sair do castelo O rei não lhe permitia. Mas ela não acatava As ordens e se esgueirava Quando ele a sesta dormia.
Ia a bela princesinha Ao início da tardinha Para os campos passear Quando uma dia caminhava  Ouviu uma flauta. Tocava Melodias de encantar.
Quem essa flauta tangia, Construindo a melodia, Era um bonito pastor, Que por fim a descobriu E entre os dois logo floriu Um grande e profundo amor.
Lá vai o pastor formoso Pedir ao rei poderoso P’ra princesa desposar El-rei, esse, não gostou E ali mesmo jurou Que o mandaria matar.
Vendo a princesa a maldade, Que seu pai, sem piedade, Proibia seu grande amor Com as esperanças perdidas Foi um dia às escondidas Procurar o seu pastor.
Quando soz…
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EQUILÍBRIO INSTÁVEL

Vou à tona da torrente
A vida dança e eu danço
Entre o coração e a mente
Na corda bamba balanço

Aníbal Raposo
Relva, 2012-08-23

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O FASCÍNIO DA MÚSICA

Se uma flauta tocar
E bem num bairro sombrio
Até consegue encantar
Um simples gato vadio

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-08-08
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DA CHUVA

Chove mesmo a bom chover
Abriu comportas o céu
E chovem beijos de arder
Debaixo deste chapéu.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-08-07


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O PIANO

A nota
A muda

Paixão
Aguda

O dom
Se estuda

E o amor
Desnuda.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-08-03
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DESCENDO AO FUNDO DE MIM

É no meio do jardim
E do abismo que contém
Que vou ao fundo de mim
Ao ventre da terra mãe

No meio da noite escura
Só confio no meu guia
Ando da luz à procura
Da virtude e da harmonia

Desço nove patamares
Segundo a verve de Dante
Piso a estrela de oito pontas
A cruz do templo a levante

A liturgia em crescendo
O sagrado a acontecer
Ao fundo de mim descendo
Morro já p'ra renascer


Aníbal Raposo
junho de 2012
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LUA CHEIA

Ah disco de prata
Mãe do amor, singela.

Libertem-me os pés
Que me vou a ela...

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-08-01
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CARTA A MEU AVÔ JOSÉ SALGADO (no dia dedicado aos avós)

Quando me deito à noitinha Eu penso em ti amiúde Queira Deus que esta cartinha Te encontre, avô, de saúde
Muita gente conheci Todos me deram conselhos Nenhum chega aos que aprendi Sentado nos teus joelhos
Eu muito tenho estudado Lido livros de seguida Mas tu, doutor, és formado Na grande escola da vida
Escrevem livros doutores Com ciência que encandeia Mas não são livros melhores Que os campos da minha aldeia
Já corri vilas, cidades Em todas deixei amores Mas sabe Deus as saudades Que eu tenho dos meus Açores
Aqui, são ventos e chuvas Tudo o mais que do céu brota Diz-me lá, tens muitas uvas Na nossa terra da Grota?
Eu não me quero alongar Pois sei que tens que fazer Agora vou-te abraçar Até quando Deus quiser
Um P. S. eu vou fazer Para beijar a avó Esteja eu onde estiver Sem vocês sinto-me só.
Aníbal Raposo Porto 1974-02-16
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LEVEI TRÊS SECOS DE MIM

Hoje fui com a minha amada
Ao estádio em excursão
Ver em disputa animada
Dois clubes do coração

Já levo o cachecol vermelho
Azul o que ela trazia
Éramos assim um espelho
Duma sã democracia

Sendo eu p'lo Santa Clara
E também Portista, no fim
A derrota não foi cara:
Levei três secos de mim.


Aníbal Raposo
Estádio de S. Miguel, 2012-07-25
Troféu Pauleta
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INSTABILIDADE

Por vezes, me quedo
a pensar, também:


a Terra balança
nesta negra dança
de festança e medo.


Apenas um dedo
mago de criança
ainda a sustém.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada 2012-07-24


(foto de Miguel Bidarra)
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GRITOS

Às vezes
Dou-me a beber
O amargo fel
Das palavras cruéis
Que são dias escritos.

Masoquista, eu?
Sabe-me bem...

Faz-me lembrar
E não perder de vista
Que esta vida
Não contém
Só alegrias,
Suaves melodias.

Contém
Também,
Profundos,
Rotundos,
Telúricos,
Impúdicos,
Roucos,
E loucos


Gritos!!!


Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-23
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SOBREVIVENTES

Por isso existimos
E resistimos.

Apesar do medo,
Não obstante a dor,


Brilha um sol ledo
De amor.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-11
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A SORTE ESTÁ LANÇADA


Atirados ao ar estão três dados
Levitam soltos sobre a mão estendida
E em caindo os três ficarão traçados
Assortes e os destinos que há na vida.

Já se a fortuna se te oferecer  
Agarra-a bem pois é teu dever  
Calhando teres sorte o saberes retê-la.
Tem em atenção que ouviste dizer:
A sorte não se atira p'la janela.


E não se pode à fama cantar odes
Saberás ao fim duns anos que bem podes
Ter sorte uma vez, não abusar dela.


Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-10
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O CAMINHAR DOS NÚMEROS

Assim nos querem.

Esculturas perfeitas
Pintadas a cinza
Marchando alinhadas,
E à mão de semear.

Seres sem horizontes,
Privados da música,
Do sal das palavras.

Sem nome
E sem asas.

Pior!
Sem vontade
De voar.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-09
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O PLANO INCLINADO

Olhei
E de repente
Ruiu a gravidade
Da minha inquietação.

O seio da montanha?

Vi Galileu entre os sábios
Sorridente.

Fazia rolar uma enorme lua cheia
Pelo plano inclinado do vulcão adormecido.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-05 
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BREVE LEITURA

não é preciso cismar
basta ser gente, vivalma:
uma madeixa, um olhar
chegam para te ler a alma

Aníbal Raposo 
2012-07-05
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ÀS VEZES CHOVEM PESSOAS

Ar olharmos p'rós tablóides
Vemos coisas más e boas:
Entre inundações de andróidesÀs vezes chovem Pessoas

Aníbal Raposo
Relva, 2012-06-26
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(Fernando Pessoa a tomar um tinto)

DO BEM VERSEJAR

Põe-se a musa de feição
Vai-se um copito tomar
E ao regar-se a inspiração
Sai logo um verso a voar.

Aníbal Raposo Relva, 2012-06-24
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RESPONSABILIDADE SOCIAL

Não te deslumbres comigo.
Cometes um erro crasso
Se ligares muito ao que digo
Sem atentares ao que faço.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-06-23
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A VOZ DO VENTO

Escuta a melodia da voz do vento irmão
E canta o que é escrito nos muros da cidade.

Aníbal Raposo 
Ponta Delgada 2012-06-10
(passeio às 8h00 desta manhã)
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MULHER E MÚSICA

O sonho liberto
Perfeita união
Ao compasso certo
Do meu coração.

Aníbal Raposo
Relva, 2012-06-10
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A DAR NOTÍCIAS DE MIM

mendigo à vida
a indulgência
de me deixar comunicar,
por mais uns tempos,
na clara linguagem
dos búzios.

a sua música,
ao ecoar na imponente arriba,
espalha notícias de mim
a cada uma
das outras aves
residentes
na fajã.

os búzios soam
e soltam a magia
das frequências cristalinas,
dificilmente audíveis
em dissonâncias
urbanas.

nos ares
lavados da Rocha,
eu toco os búzios

ao fazê-lo
saúdo as coisas modestas
com os olhos plenos
das infinitas
quimeras
de azul.


Aníbal Raposo
Relva, 2012-06-07
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(Dois veleiros a enquadrar a cadeia da cidade)

 A VELA E A GRILHETA

Em mares tão serenos
Na zona da Calheta
Tocam-se os dois extremos
A vela e a grilheta.

Ponta Delgada, 2012-05-31
Aníbal Raposo
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EM LOUVOR DO DIVINO

Cada vez que um irmão
me dá a beijar
a bandeira do Divino:

Chega aos meus ouvidos,
o canto de folias
seculares;

Acende-se uma fogueira
de luz intensa e viva
no meu peito;

Nasce uma ribeira
de águas mansas
nos meus olhos.


Ponta Delgada, 2012-05-25
Aníbal Raposo
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ROMEU E JULIETA

Ora Julieta, quem sou eu
para entender o leve riso, bem disposto,
e este brilhar de lua cheia no teu rosto?
Por que te oferece flores o teu Romeu?

Ponta Delgada, 2012-05-21
Aníbal Raposo
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JANELAS

Quando o meu barco navega em mar de escolhos
Há um segredo para a paz, tudo se acalma,
Basta que olhe bem no fundo nos teus olhos
As janelas escancaradas da tua alma.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-05-20
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DE QUEM SOU

Sou rapaz e sou poeta
Escrevo como a sonhar
Ando às vezes na sarjeta
Outras no céu a voar.

Aos versos todo me dou 
Sem saber o que me impele
Mas gosto de ser quem sou
Visto bem a minha pele. 

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-05-02

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2 minutos para escrever
5 versos:

Agita-te de novo
Berço
Real e
Irresistível da santa
Liberdade!

Aníbal Raposo
Ponta Delgada 2012-04-24
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LIVRO

Para mim és fêmea
livro que desejo.

Procuro-te a cada semana
nas esquinas de engate do costume.
Miro-te de longe as formas
e aprecio as cores da roupagem
que te veste.

Como quem não quer a coisa
pergunto-te sorrateiro pelo nome,
tentando adivinhar-te o parentesco.
Tu de quem és? Como se diz aqui na terra.

É que a tua resposta
poderá aumentar a minha sede,
amplificar o meu interesse.

Depois de olhar à volta de soslaio
passo-te abusador a mão lampeira
por todo o corpo,
a capa e o verso.

Encosto a tua cara à minha
para te ver de perto,
sentir e memorizar
esse teu cheiro.

Se de tudo gosto
levo-te ao colo para minha casa
profundamente apaixonado.

Depois, apressados,
na incontinência da libido
mergulhamos os dois
no chão macio dum sofá
e fazemos amor
perdidamente...

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-04-23
(Dia do livro)