domingo, novembro 30, 2014

















INTERROGAR COM ARTE

Reconheço
humildemente
a minha pequenez.

Mas será
que a minha alma
cabe aqui?

Relva, 2014-11-29
Aníbal Raposo

sábado, novembro 29, 2014



DERVICHES

Poesia,
música,
dança,
e humildade

no rodopio
do mundo. Uma via
para sondar a divindade.

Relva, 2014-11-29
Aníbal Raposo

Foto de Celil Advan 

quarta-feira, novembro 26, 2014
















ENTRETANTO

Hei de cantar-te tanto
Meu encanto
E quero que o meu canto
Que em ti planto
Arda de desplanto
Em puro espanto

Relva 2014-11-26
Aníbal Raposo

Pintura de Roberto Chichorro 






















ITINERÁRIOS

Vou na carruagem
que navega nestes trilhos.

No fim da viagem
garantem-me uma meta.
Que lá chego.

Aonde?
Quero?

Relva, 2014-11-26
Aníbal Raposo

Foto: Dmitry Doronin
Road to nowhere

sexta-feira, novembro 21, 2014























FRAGILIDADES

Frágil é o riso que desponta
Frágil a palavra no poema
Frágil a vaidade sempre tonta
Frágil a jactância que dá pena

Frágil é o rebento da cana
Frágil a flor do maracujá
Frágil uma ideia em mente insana
Frágil quem amores exaltará

Frágil quem não sabe onde dormir
Frágil o fio que tece a aranha
Frágil quem se fica no carpir
Frágil todo aquele que se amanha

Frágil é a vida a cada hora
Frágil porque certa é mesmo a morte
Frágil o quem tem sorte caipora
Frágil quem se tem por muito forte

Frágil é um rio impetuoso
Frágil porque se humilha no mar
Frágil todo o ser que é venenoso
Frágil que a peçonha vai findar

Frágil é a onda quando quebra
Frágil no baixio a rebentar
Frágil é aquele que celebra
Frágil porque um dia vai chorar

Frágil quem não tem rumo nem norte
Frágil é aquele que se ufana
Frágil o fraco que se acha forte
Frágil a vil natureza humana

Relva, 2014-11-21
Aníbal Raposo






















LAVRANDO TEMPESTADES

Se as ondas da má sorte se agigantam
Sem eleger oceano
Ou preferir idade

Há que afrontar o fado
Ter alma de veleiro
Lavrar a tempestade


Relva, 2014-11-21
Aníbal Raposo

Foto de 
Kurt Arrigo

quinta-feira, novembro 20, 2014

















DA DÚVIDA

Existe um velho ditado que encerra
uma verdade que de tão evidente,
que é, ninguém a contesta nem desmente:
o que nada faz, esse nunca erra.

Cabe ao homem bater-se nesta guerra
das coisas bem fazer, é bom que tente.
E contudo é errando aqui na terra
que se aprende e se dá o salto em frente.

Bem conhecemos muito convencido
que é dono da verdade, anda iludido,
não duvida, nem se pode enganar.

P'ra mim este é assunto resolvido.                                  
Posso dizer-vos: muito mais duvido
do que se gaba de não duvidar.


Relva, 2014-11-20
Aníbal Raposo

sábado, novembro 15, 2014




CASA

Sonhei,
ao pormenor,
a tua génese.

Povoaram-te risos,
versos de amor
e flores de esperança.

Vi-te a escoar
no vazar da maré,
quando o escuro da noite
pintava o fundo da minha alma.

Mas veio o sol de novo
e inundou-te as salas, de música,
de gargalhadas límpidas,
delicadezas de orquídeas
e cheiro a tangerinas.

De quando em vez
oiço o som das asas
dos pássaros fiéis que, no regresso,
esvoaçam felizes no teu ventre.

Testemunha muda
do tempo.

Palco iluminado
onde, a cada dia, vai à cena
a peça das nossas vidas.


Relva, 2014-11-15
Aníbal Raposo
  

PhotoAllegory of Sarolta Bán

sexta-feira, novembro 14, 2014























PANEM ET CIRCENSES

Ao invés
da receita romana
de então

Hoje há circo
a rodos

Falta é pão


Relva, 2014-11-14
Aníbal Raposo

Foto Laurent Chehere
Flying Circus
in "A Lifetime Photography"

sábado, novembro 08, 2014

















O SÍTIO ONDE ME ENCONTRO E SEI DE MIM

Por verdade ser, quero declarar
Que num mundo atulhado de vaidade
Resta um lugar bendito junto ao mar
Onde se partilha pão e amizade.

Um sítio, de homens livres no voar,
Onde tu és tu mesmo de verdade,
Não tens de te vender ou mascarar,
Não conta a condição nem conta a idade.

Ali me escondo eu sem ser cobarde
Dizendo muitas vezes sem alarde
Que bom meu Deus viver dias assim.

Sempre que o sol se acende ao fim da tarde
O coração no peito também arde.
É na fajã que me encontro e sei de mim.

Relva, 2014-11-08
Aníbal Raposo

sexta-feira, novembro 07, 2014
















PARTIDA

É hora de largar o ninho,
O aconchego das furnas de basalto da fajã.

Os meus progenitores, pais extremosos,
Há uma semana que já não me alimentam.

Aqui na falésia
(Que sei eu do mundo?)
Quando a fome aperta e se perde peso
Ganha-se coragem e agilidade para voar.

Partirei feliz e em liberdade,
À conquista dos mares quentes do sul,

No fim de fevereiro, guiado pelo instinto,
Regressarei para o fechar de mais um ciclo.

E rasgarei de novo a escuridão da noite
Com os meus voos rasantes, junto às casas,
Partilhando a alegria dos meus cânticos de menino.

Relva, 2014-11-07
Aníbal Raposo

quarta-feira, novembro 05, 2014



















RUMOS

Temos barco e temos remos
E um mar oceano de saberes
Que norte nas palavras acharemos?

Relva, 2014-11-05
Aníbal Raposo