terça-feira, novembro 26, 2013



VELHO COMBOIO

Acabou-se o jogo.
Potência do fogo,
Rajada de vento.

O tempo é algoz.
Mas voas veloz
No meu pensamento.

Relva, 2013-11-26
Aníbal Raposo

sexta-feira, novembro 22, 2013























OCASO

Caminho lentamente
Na senda do crepúsculo.

Aguardo o abraço final.
A minha fusão com a terra mãe.

No dia em que fechar os olhos
Adivinho um lindo sol em chamas
A deitar-se num mar de azeite na fajã.

Quem baralhará
As partículas desfeitas
Do meu corpo?

Alguém as dividirá,
Como lhe aprouver,
E dará cartas de novo.

Quando ressuscitar
Serei um pássaro?

Ou renascerei como uma árvore
Onde outras aves farão ninho?

Relva, 2013-11-22
Aníbal Raposo

(Foto de FAN HO, Hong Kong Master Street)













VIAGEM

Juro que hei de conduzir
Esta velha barca
Ao porto certo.

Ah esta minha obstinação
De pegar de caras,
Com as mãos na anca
E o peito aberto,
Uma enorme lua.

Relva, 2013-11-21
Aníbal Raposo

quarta-feira, novembro 20, 2013


















FADO DA INGRATIDÃO

Não sei porque te canto
Nem sei porque te quero
Tu és o meu quebranto
E desespero

Companheiro na noite
O espinho do meu dia
O ferro de um açoite
Uma agonia

Fado louco
Dás tão pouco
A quem te adora
Mas mantens pela vida fora
O que é chama num artista

Fado duro
Te esconjuro
Na verdade
Por tu seres pai da saudade
Que é o fado dum fadista


Aníbal Raposo
Maio de 1991

terça-feira, novembro 19, 2013

















PESCADOR DE SONHOS

Estou neste banco sentado
Olhando o nada à tardinha.
Cá por mim nunca me enfado
A pescar sonhos à linha.

Calcorreio o meu passado,
Assobio uma modinha,
Chego a dormir um bocado
A pescar sonhos à linha.

Navego, pano enfunado
Do vento que se avizinha,
Quando estou aqui sentado
A pescar sonhos à linha.

Sei do que sou acusado:
Não cuido da sorte minha.
Deixem-me estar sossegado
A pescar sonhos à linha...

Relva, 2013-11-19
Aníbal Raposo

(Foto de Paulo Dias 
Fishing a Dream)

terça-feira, novembro 12, 2013



















MAESTRO

O desafio último
É conduzir o sonho
Na plenitude dos sentidos.


Relva, 2013-11-12
Aníbal Raposo
(foto de Benoit Courti)

segunda-feira, novembro 11, 2013














IN VINO VERITAS

É tiro e queda, resulta
E dito da antiguidade:
O que na água se oculta 
No vinho solta a verdade

Relva, 2013
Em dia de São Martinho

domingo, novembro 10, 2013



















MARIONETAS

Assim nos desejam:
Vazios, sem rosto,
Costas ao futuro,
Com os dias nus,
Seres articulados.

Penso que gracejam
Com o nosso desgosto.
Não sonham quão duro
É o peso da cruz.
Estão bem enganados...

Relva, 2013-11-10
Aníbal Raposo

(Foto de Rosie Hardy)

sábado, novembro 09, 2013














ROCHA

É aqui
Que me acho
E sei de mim.

Aníbal Raposo
Relva, 2013-11-07

SE O TEU AMOR

Se o teu amor
Fosse assim como o mar
Me embalasse a cantar
Não fosse silêncio e dor
Tivesse asas de vento
Assobiasse baixinho
Fosse assim um bom vinho
Me soltasse o sentimento

Me pusesse a vibrar
Como corda de guitarra
Não fizesse de amarra
Quando o meu barco quer largar


Fosse ele a loa
De toda a minha vida
Tempestade vivida
Sendo calma de lagoa
Fosse assim o perfume
Duma flor macerada
Fosse face marcada
Fosse a acha no meu lume

E como o sol é do céu
Como o mar é da lua
Era eu toda tua
Toda tua e tu só meu


Relva, 1996-02-20
Aníbal Raposo

(poema para uma minha amiga cantar)













ROSA

És uma rosa
E o teu perfume
Coisa mimosa
É um mar de lume.


Aníbal Raposo

Relva, 2013-11-09
(foto tirada hoje no meu jardim)

sexta-feira, novembro 01, 2013



















TRINITY COLLEGE

Nos teus pátios sombrios
Pressinto o buscar da claridade
Quatro séculos de forja do saber
Na velha Dublin.

Espreita um raio de sol.
Correm velozes os formandos
A estender-se em grupo
Na verdura dos relvados.
Os corpos sorvem-no vorazes
Como se em cada veia
Fluísse sangue frio.

Mas é quente o aconchego dos pubs da cidade
Onde, ao cair do dia, se soltam  risos alvos,
Conversa franca, boa música
E pints de cerveja escura.

Prometo que um destes dias voltarei,
Terra de Santos e Sábios.

Saudade da Tir na nÓg
Lugar da eterna juventude.


Relva, 2013-11-01
Aníbal Raposo