sexta-feira, abril 22, 2005




TALVEZ

Talvez um riso teu, um gesto sábio
Pudesse ser o sol do meu conforto
Talvez tu queiras ser o astrolábio
Que guia a minha nau para bom porto

Talvez no mar irado das tormentas
Talvez no batalhar do dia-a-dia
Tu sejas o planar, com asas lentas
Da garça que adivinha a calmaria

Talvez o melro poise na varanda
Talvez o seu cantar me lance pistas
Talvez eu chegue ao fim desta demanda
Talvez sejas real, talvez existas


Aníbal Raposo
1999



A TUA CHEGADA

Vieste o outro dia
Claro que vieste
Com rumo a Nordeste
E muita alegria
E diz quem te viu
Que vinhas com calma
Para ouvir minh’alma
Que à tua se abriu

P’ra meu grande espanto
Ouviste calada
E p’la madrugada
Já te amava tanto
De manhã, o alvor
Foi sem embaraço
Selámos num abraço
Promessas de amor

Junto de um carvalho
De sombra cerrada
Abriu-se uma estrada
Do que era um atalho
E então num desejo
Quente de mil sóis
Trocámos os dois
O primeiro beijo

Depois junto ao mar
Entre coisas belas
Contámos estrelas
De noite ao luar
E ouvi tua voz
E também cantava
E a lua brilhava
Somente p’ra nós

No pino do verão
Cruzámos os mares
E ouvimos cantares
À noite, ao serão
Depois do sol-pôr
Dormimos cansados
Corpos fatigados
De brigas de amor

E quis o destino
Que tu me encontrasses
E me transformasses
De novo em menino
Por minha querida
Agora te chamo
E sei que te amo
Mais que à própria vida.


Aníbal Raposo

Lisboa
2003-10-14

quarta-feira, abril 20, 2005




NASCER DE NOVO

Por me teres feito, de novo, correr o sangue nas veias
Pelo baralhar completo das minhas ideias
Pela boleia tranquila p'ró sétimo céu
Faço-te a devida vénia tiro-te o chapéu

Pela frechada certeira que me deu Cupido
Pela ausência da cantiga dita do bandido
No fundo dos teus olhos claros é que me revejo
No meio dos meus sonhos loucos é que te desejo

Oh meu bem, bem sei
Oh meu bem, sei lá
Oh meu bem, ninguém
Sabe o que será

Aníbal Raposo
1990