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A mostrar mensagens de Novembro, 2008
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Sem abrigo - Foto de Renato Fogal

ANUNCIANDO O NATAL
As tílias vestidas de luzes glaciares
Anunciam a chegada do Natal
Na cidade branca de Lisboa.Vultos furtivos movimentam-se apressados
Numa baixa transida de frio,
Correndo para o conforto do metro
Que os levará às suas casas-colmeias semeadas nos subúrbios.
O centro da urbe tornou-se apenas uma meta difícil
A conquistar por milhares no desgaste de cada madrugada.Há, no entanto, quem ainda resista:
Os deserdados da vida que, no Rossio, ajeitam os cobertores
Nos seus leitos gélidos de papel de jornal
Preparando-se para mais uma noite
Dormida ao relento sob um céu sem estrelas.
Glória a Deus nas alturas!
E sonoros aplausos para a deslumbrante gruta azul,
Do presépio profano plantado aos pés do Marquês do Pombal.

Lisboa, 2008-11-23
Aníbal Raposo
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A FLECHA E A LIRA

Porque é que às vezes
As palavras que escrevemos
São como dardos envenenados?

Partem velozes do arco tenso da nossa memória
E cruzam os ares, sedentas na procura do alvo.
Por vezes e sem o desejarmos,
Atingem aqueles que amamos com tal brutalidade
Que ficamos banzados de espanto
Pelo forte impacto causado
E pela enorme violência dos estragos colaterais.

Depois agitam-se, frementes, soltam-se do alvo,
E fazem a viagem de regresso, em ricochete,
Ferindo-nos bem fundo, no peito.
Provocam golpes tão dolorosos
Que uivamos no chão transidos de dor.

Esconde o arco e a flecha velho poeta,
A hora é de tanger a lira.
Escuta a música do tempo...

Ponta Delgada, 2008-11-22
Aníbal Raposo
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TARDE NA ROCHA

A tarde está calma e o mar chão.
Debaixo da latada
Interrompo a Saudade a meio
Para ouvir o concerto de um bando de garajaus que passa.
Depois, continuo o cortinado roxo...

Só Erika me entende.
À minha breve pausa
Brilham-lhe os olhos
Suaves lagos de azul.

Os meus amigos,
Com quem compartilho
A sábia espera do negro das uvas,
Estranham o parco interregno...

Aqui, neste lugar estranho
A verdadeira
União Europeia
Dos sentidos.

2002
Aníbal Raposo
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FADO DA TAVERNA

Naquela rua estreitinha
Que do Arcanjo tomou
O nome, que perdurou,
Há uma casa onde o fado
É ouvido e acarinhado
(Naquela rua velhinha)

Todos os dias a eito
Até alta madrugada
Enquanto geme magoada
A guitarra portuguesa
Bebe-se vinho na mesa
Canta-se o fado a preceito

Ali mesmo ao pé do bar
Estão três pessoas à fala
Quase no centro da sala
Na mesa que é dos artistas
Três vozes, de três fadistas,
Que passo a enumerar:

A primeira é voz que ecoa
Com requebros alfacinhas
Canta cantigas velhinhas
Di-las com gosto e com raiva
Dá p'lo nome de Saraiva
E é natural de Lisboa

Já que vou entusiasmado
Vou nomear a segunda
Voz arrastada e profunda
Pelo peito o xaile traça
Piedade de sua graça
É corisca e canta o fado

Quando o Hilário cantava
Alta noite no Choupal
(E a sua voz de cristal
Toda a tricana escutava)
Já o Vitória entoava
Cantigas p'ró pessoal

Ao lado senta-se um mago
Da viola. Não tem par !
Quando se põe a tocar
Ataca acordes sem medo.
Peço desculpa ó Alfredo:
Quem toca assim não é Gago !

E por fim p'r…
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REMA

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema lanchinha
Pró alto mar

Rema que rema
No mar irado
Gostar de ti
É um triste fado

Rema que rema
Na calmaria
Senhor S. Pedro
És o meu guia


Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema lanchinha
Pró alto mar


Rema que rema
Pelo mar fora
Segura o leme
Nossa Senhora

Rema que rema
Pró areal
Se te não vejo
Passo bem mal


Aníbal Raposo
Agosto 2000
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NO PANO VERDE

Confessemos que aos vinte anos Tudo era mais directo e fácil:
Como pintores talentosos, Em traços ágeis de lápis de carvão Circunscrevíamos a besta,
E pum!
Caída no goto (E no conveniente ritmo) A justa palavra de ordem, Previamente verificada,
Pelos novos inquisidores, A conformidade com a cartilha revolucionária Estudada em duas noitadas breves:
Zás!
Mandávamos (Ou pensávamos ter mandado) a dita abaixo Com dois tiros certeiros.

In illo tempore, Ríamos de tudo, De tão convictos e inocentes que éramos. Personagens do Decameron De Pier Paolo Pasolini.
Usufruíamos das imaturas certezas
Com a enorme pujança Dos que sonham acordados. E parecíamos gozar por breves instantes
A ilusão idiota de ter o poder contido Na firmeza dos nossos punhos erguidos.
Algumas (poucas) vezes Para nossa felicidade breve Parecíamos sentir a besta soçobrar, Agonizando. Caída, ali, exangue, No chão, bem à nossa frente, Pronta a ser imolada nas chamas Do sacro altar das nossas convicções juvenis.

Agora, Agora, não... Na fase outonal …
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O homem do leme - escultura de Américo Gomes
DA VIDA E DO RUMO
No que concerneÀ atitudeAssumo a postura Do fio-de-prumo.
Rectilínea, A probidade do espírito. A esquadro a traço.
O círculo perfeito, destino À verdade e à lealdade, Virtudes irmãs Que risco a compasso.

E a proa da barca Da vida e da morte Apontada a norte
Por ser o meu rumo.
Relva, 2008-11-17Aníbal Raposo
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À HORA EM QUE OS POETAS SE INQUIETAM
Há momentos tão feitos à dor
Que soltam sentimentos, que os despertam.Eu, por mim, sou dado a males de amorÀ hora em que os poetas se inquietam.Na hora em que os meus versos nascem soltosHá um pôr-do-sol tão roxo que seduz.As formas em recorte contra-luzE os mares do meu peito tão revoltos.Um bando de estorninhos, nuvem preta.A dança em rodopio dos morcegos.Há um ferver do sangue do poetaQue entrou na hora dos desassossegos.
Rocha da Relva, 2002
Aníbal Raposo
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A MARCHA

Porque é que ao caboucar o poemaMe vêm sempre à lembrançaImagens inesperadas Que me tolhem a fluidez do verso?
Porque é que a razão e o sonho Em mim sempre se atropelam Na estúpida ansiedade De quererem ser as primeiras a cortar a meta?
Porque é que vislumbro sempre vis cumplicidades, Na persistência das sombras que me agridem, Me servem penosas insónias nocturnas E me encrespam o riso?
Às vezes penso que esses fantasmas assim agem Porque ouviram, de segura fonte, Que o riso é o som da água que corre Na ribeira do pensamento cristalino, Das consciências livres.
Ouviram e sabem que a felicidade Flutua na turbulenta torrente da utopia, Que é o pão e o vinho das almas libertas,
De preconceitos e máscaras.
Das almas que ousam romper As grilhetas que guardam cativas As tristes personagens do grande teatro de marionetas
Em que transformaram as nossas vidas.
Por isso nos querem, Marchando: Todos sem tempo, E todos a tempo.

E nós lá vamos Marcando passo Com as botas da tropa E também com outras De biqueira de aço.