domingo, novembro 23, 2008


Sem abrigo - Foto de Renato Fogal

ANUNCIANDO O NATAL

As tílias vestidas de luzes glaciares
Anunciam a chegada do Natal
Na cidade branca de Lisboa.

Vultos furtivos movimentam-se apressados
Numa baixa transida de frio,
Correndo para o conforto do metro
Que os levará às suas casas-colmeias semeadas nos subúrbios.
O centro da urbe tornou-se apenas uma meta difícil
A conquistar por milhares no desgaste de cada madrugada.

Há, no entanto, quem ainda resista:
Os deserdados da vida que, no Rossio, ajeitam os cobertores
Nos seus leitos gélidos de papel de jornal
Preparando-se para mais uma noite
Dormida ao relento sob um céu sem estrelas.

Glória a Deus nas alturas!
E sonoros aplausos para a deslumbrante gruta azul,
Do presépio profano plantado aos pés do Marquês do Pombal.

 
Lisboa, 2008-11-23
Aníbal Raposo

sábado, novembro 22, 2008



A FLECHA E A LIRA


Porque é que às vezes
As palavras que escrevemos
São como dardos envenenados?

Partem velozes do arco tenso da nossa memória
E cruzam os ares, sedentas na procura do alvo.
Por vezes e sem o desejarmos,
Atingem aqueles que amamos com tal brutalidade
Que ficamos banzados de espanto
Pelo forte impacto causado
E pela enorme violência dos estragos colaterais.

Depois agitam-se, frementes, soltam-se do alvo,
E fazem a viagem de regresso, em ricochete,
Ferindo-nos bem fundo, no peito.
Provocam golpes tão dolorosos
Que uivamos no chão transidos de dor.

Esconde o arco e a flecha velho poeta,
A hora é de tanger a lira.
Escuta a música do tempo...

Ponta Delgada, 2008-11-22
Aníbal Raposo


TARDE NA ROCHA


A tarde está calma e o mar chão.
Debaixo da latada
Interrompo a Saudade a meio
Para ouvir o concerto de um bando de garajaus que passa.
Depois, continuo o cortinado roxo...

Só Erika me entende.
À minha breve pausa
Brilham-lhe os olhos
Suaves lagos de azul.

Os meus amigos,
Com quem compartilho
A sábia espera do negro das uvas,
Estranham o parco interregno...

Aqui, neste lugar estranho
A verdadeira
União Europeia
Dos sentidos.

2002
Aníbal Raposo


FADO DA TAVERNA


Naquela rua estreitinha
Que do Arcanjo tomou
O nome, que perdurou,
Há uma casa onde o fado
É ouvido e acarinhado
(Naquela rua velhinha)

Todos os dias a eito
Até alta madrugada
Enquanto geme magoada
A guitarra portuguesa
Bebe-se vinho na mesa
Canta-se o fado a preceito

Ali mesmo ao pé do bar
Estão três pessoas à fala
Quase no centro da sala
Na mesa que é dos artistas
Três vozes, de três fadistas,
Que passo a enumerar:

A primeira é voz que ecoa
Com requebros alfacinhas
Canta cantigas velhinhas
Di-las com gosto e com raiva
Dá p'lo nome de Saraiva
E é natural de Lisboa

Já que vou entusiasmado
Vou nomear a segunda
Voz arrastada e profunda
Pelo peito o xaile traça
Piedade de sua graça
É corisca e canta o fado

Quando o Hilário cantava
Alta noite no Choupal
(E a sua voz de cristal
Toda a tricana escutava)
Já o Vitória entoava
Cantigas p'ró pessoal

Ao lado senta-se um mago
Da viola. Não tem par !
Quando se põe a tocar
Ataca acordes sem medo.
Peço desculpa ó Alfredo:
Quem toca assim não é Gago !

E por fim p'ra rematar
Que vai longa a cantoria
Como se fosse magia
Ouve-se um som que não engana
Sai das mãos do Zé Pracana
É uma guitarra a chorar

Naquela rua estreitinha
Que do Arcanjo tomou
O nome, que perdurou,
Há uma casa onde o fado
É ouvido e acarinhado
(Naquela rua velhinha)

Aníbal Raposo
1990-08-10


REMA


Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema lanchinha
Pró alto mar

Rema que rema
No mar irado
Gostar de ti
É um triste fado

Rema que rema
Na calmaria
Senhor S. Pedro
És o meu guia


Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema lanchinha
Pró alto mar


Rema que rema
Pelo mar fora
Segura o leme
Nossa Senhora

Rema que rema
Pró areal
Se te não vejo
Passo bem mal


Aníbal Raposo
Agosto 2000

quarta-feira, novembro 19, 2008



NO PANO VERDE

Confessemos que aos vinte anos
Tudo era mais directo e fácil:

Como pintores talentosos,
Em traços ágeis de lápis de carvão
Circunscrevíamos a besta,
E pum!

Caída no goto
(E no conveniente ritmo)
A justa palavra de ordem,
Previamente verificada,
Pelos novos inquisidores,
A conformidade com a cartilha revolucionária
Estudada em duas noitadas breves:
Zás!
Mandávamos
(Ou pensávamos ter mandado) a dita abaixo
Com dois tiros certeiros.

In illo tempore,
Ríamos de tudo,
De tão convictos e inocentes que éramos.
Personagens do Decameron
De Pier Paolo Pasolini.
Usufruíamos das imaturas certezas
Com a enorme pujança
Dos que sonham acordados.
E parecíamos gozar por breves instantes
A ilusão idiota de ter o poder contido
Na firmeza dos nossos punhos erguidos.

Algumas (poucas) vezes
Para nossa felicidade breve
Parecíamos sentir a besta soçobrar,
Agonizando.
Caída, ali, exangue,
No chão, bem à nossa frente,
Pronta a ser imolada nas chamas
Do sacro altar das nossas convicções juvenis.


Agora,
Agora, não...
Na fase outonal da nossa vida,
Tudo se tornou mais esbatido, sofisticado...

Jogamos às cartas sobre o pano verde
Com a dita besta,
Que entretanto se tornou educada, polida,
Diria até doméstica, familiar e supostamente sensível,
Sob pálida luz amarelada dum candeeiro art nouveau.

Bebericamos com ela umas flutes de champanhe.
E no degustar de alguns canapés
Tentamos adivinhar-lhe a próxima cartada,
Aparando-lhe o jogo.

Podemos até desafiar a nossa inteligência
Arquitectando mais um lance subtil que demore a contenda.
Afivelando a máscara perfeita
Procurar, para alívio da nossa consciência, o lance mágico.
O que consiga equilibrar na corda bamba
A débil coerência que nos resta.
É sempre consolador fazer algumas vazas...

Tudo isto debaixo da clara percepção
Que neste jogo viciado
A besta açambarcou os trunfos todos
E é certo e sabido que, no fim,
Nos vai ganhar.

Baia do Fanal, Angra do Heroismo
2008-11-19
Aníbal Raposo

sexta-feira, novembro 14, 2008


O homem do leme - escultura de Américo Gomes

DA VIDA E DO RUMO

No que concerne
À atitude
Assumo a postura
Do fio-de-prumo.

Rectilínea,
A probidade do espírito.
A esquadro a traço.

O círculo perfeito, destino
À verdade e à lealdade,
Virtudes irmãs
Que risco a compasso.

E a proa da barca
Da vida e da morte
Apontada a norte
Por ser o meu rumo.

Relva, 2008-11-17
Aníbal Raposo

quarta-feira, novembro 12, 2008


À HORA EM QUE OS POETAS SE INQUIETAM


Há momentos tão feitos à dor

Que soltam sentimentos, que os despertam.

Eu, por mim, sou dado a males de amor

À hora em que os poetas se inquietam.

 

Na hora em que os meus versos nascem soltos

Há um pôr-do-sol tão roxo que seduz.

As formas em recorte contra-luz

E os mares do meu peito tão revoltos.

Um bando de estorninhos, nuvem preta.

A dança em rodopio dos morcegos.

Há um ferver do sangue do poeta

Que entrou na hora dos desassossegos.


Rocha da Relva, 2002

Aníbal Raposo

terça-feira, novembro 11, 2008



A MARCHA

Porque é que ao caboucar o poema
Me vêm sempre à lembrança
Imagens inesperadas
Que me tolhem a fluidez do verso?

Porque é que a razão e o sonho
Em mim sempre se atropelam
Na estúpida ansiedade
De quererem ser as primeiras a cortar a meta?

Porque é que vislumbro sempre vis cumplicidades,
Na persistência das sombras que me agridem,
Me servem penosas insónias nocturnas
E me encrespam o riso?

Às vezes penso que esses fantasmas assim agem
Porque ouviram, de segura fonte,
Que o riso é o som da água que corre
Na ribeira do pensamento cristalino,
Das consciências livres.

Ouviram e sabem que a felicidade
Flutua na turbulenta torrente da utopia,
Que é o pão e o vinho das almas libertas,
De preconceitos e máscaras.

Das almas que ousam romper
As grilhetas que guardam cativas
As tristes personagens do grande teatro de marionetas
Em que transformaram as nossas vidas.

Por isso nos querem,
Marchando:
Todos sem tempo,
E todos a tempo.

E nós lá vamos
Marcando passo
Com as botas da tropa
E também com outras
De biqueira de aço.

Um! Dois! Três!
Esquerdo! Direito!
Perfeito!

No tempo certo,
Marcando passo.
Tudo a preceito,
Tudo proveito,
Tudo a compasso. 

Ponta Delgada, 2008-11-11
Aníbal Raposo