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A mostrar mensagens de Setembro, 2005
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Portrait of Dora Maar
Pablo Picasso (1881-1973/Spanish)
Oil on Canvas
ESTÁTUA DE FOGO

Tu és assim como um luzeiro
Que ilumina a minha noite por inteiro
A nascente d' água da minha fajã
O meu sonho, a minha estrela da manhã

És o araçá mais saboroso
És a ponta de saudade que dá gozo
Como um lenço que me acena à despedida
És o sal com que eu tempero a minha vida

Refrão

Olha p'ra mim! Sou uma estátua a arder
Deitaste-me fogo, vem-me arrefecer
Eu quero voar bem alto, em liberdade
Quem semeia o vento colhe a tempestade

Tu és o mar do meu desejo
És assim o monte do meu Alentejo
Como um sol que morre em sangue no Escalvado
Tens o som duma guitarra no meu fado

Abril de 1995
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A MÁSCARA

Dêem-nos tempo para pormos a máscara
Perdidos que estamos nas esquinas do medo
Dêem-nos um barco, um leme e uma bússola
E partiremos de manhã cedo

Temos um sol quente
Um céu azul forte
Vamos no mar largo
Abrimos o pano todo ao vento norte

Queremos um quarto forrado de espelhos
Para mirarmos a nossa nudez
Corremos o risco de chegarmos a velhos
Sem nunca sabermos da loucura a lucidez

Sabemos do beijo que roça a carícia
Sabemos da caixa que guarda os segredos
Sabemos da vida, fingida, a malícia
Tocamos na lua com a ponta dos dedos


Maré de Agosto de 1994
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AMANHECER NA FAJÃ

Que diremos nós os dois quando chegar a madrugada
E as nossas mãos-palavras se quedarem esclarecidas?
Dançarão os nossos corpos como peixes na corrente?
Ensaiarão voos picados de garajaus famintos?

Que diremos a seguir, quando passar a tempestade
E navegarmos tranquilamente no mar de azeite
Dos sentidos? Seremos como milhafres a voar
Com olhos verde-riso que só o nosso amor inventa?

Que caminhos-prata neste mar de breu rompeu a lua?
Quantas carícias trocaremos ao canto dos cagarros?
Que subtis destilados soltarão línguas tão domésticas?
A nossa pequenez na contemplação destes luzeiros...

Bendito seja Deus por me ter vivo
E por me dar a benção de amanhecer contigo na fajã...

Lisboa
2005-09-12
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Mulher com bandolim
Picasso

DUAS MULHERES

A primeira
Para me tanger em vida nova;

A segunda
Para voar até à cova.

Lisboa
2005-09-14