quinta-feira, julho 26, 2012












CARTA A MEU AVÔ JOSÉ SALGADO
(no dia dedicado aos avós)

Quando me deito à noitinha
Eu penso em ti amiúde
Queira Deus que esta cartinha
Te encontre, avô, de saúde

Muita gente conheci
Todos me deram conselhos
Nenhum chega aos que aprendi
Sentado nos teus joelhos

Eu muito tenho estudado
Lido livros de seguida
Mas tu, doutor, és formado
Na grande escola da vida

Escrevem livros doutores
Com ciência que encandeia
Mas não são livros melhores
Que os campos da minha aldeia

Já corri vilas, cidades
Em todas deixei amores
Mas sabe Deus as saudades
Que eu tenho dos meus Açores

Aqui, são ventos e chuvas
Tudo o mais que do céu brota
Diz-me lá, tens muitas uvas
Na nossa terra da Grota?

Eu não me quero alongar
Pois sei que tens que fazer
Agora vou-te abraçar
Até quando Deus quiser

Um P. S. eu vou fazer
Para beijar a avó
Esteja eu onde estiver
Sem vocês sinto-me só.

Aníbal Raposo
Porto 1974-02-16

quarta-feira, julho 25, 2012










LEVEI TRÊS SECOS DE MIM

Hoje fui com a minha amada
Ao estádio em excursão
Ver em disputa animada
Dois clubes do coração

Já levo o cachecol vermelho
Azul o que ela trazia
Éramos assim um espelho
Duma sã democracia

Sendo eu p'lo Santa Clara
E também Portista, no fim
A derrota não foi cara:
Levei três secos de mim.


Aníbal Raposo
Estádio de S. Miguel, 2012-07-25
Troféu Pauleta

terça-feira, julho 24, 2012


















INSTABILIDADE

Por vezes, me quedo
a pensar, também:


a Terra balança
nesta negra dança
de festança e medo.


Apenas um dedo
mago de criança
ainda a sustém.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada 2012-07-24


(foto de Miguel Bidarra)

segunda-feira, julho 23, 2012





GRITOS

Às vezes
Dou-me a beber
O amargo fel
Das palavras cruéis
Que são dias escritos.

Masoquista, eu?
Sabe-me bem...

Faz-me lembrar
E não perder de vista
Que esta vida
Não contém
Só alegrias,
Suaves melodias.

Contém
Também,
Profundos,
Rotundos,
Telúricos,
Impúdicos,
Roucos,
E loucos


Gritos!!!


Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-23

quarta-feira, julho 11, 2012
















SOBREVIVENTES

Por isso existimos
E resistimos.

Apesar do medo,
Não obstante a dor,


Brilha um sol ledo
De amor.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-11

terça-feira, julho 10, 2012



















A SORTE ESTÁ LANÇADA


Atirados ao ar estão três dados
Levitam soltos sobre a mão estendida
E em caindo os três ficarão traçados
As sortes e os destinos que há na vida.

Já se a fortuna se te oferecer                                    
Agarra-a bem pois é teu dever  
Calhando teres sorte o saberes retê-la.  
Tem em atenção que ouviste dizer:
A sorte não se atira p'la janela.



E não se pode à fama cantar odes 
Saberás ao fim duns anos que bem podes
Ter sorte uma vez, não abusar dela.


Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-10

segunda-feira, julho 09, 2012



















O CAMINHAR DOS NÚMEROS

Assim nos querem.

Esculturas perfeitas
Pintadas a cinza
Marchando alinhadas,
E à mão de semear.

Seres sem horizontes,
Privados da música,
Do sal das palavras.

Sem nome
E sem asas.


Pior!
Sem vontade
De voar.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-09

quinta-feira, julho 05, 2012














O PLANO INCLINADO

Olhei
E de repente
Ruiu a gravidade
Da minha inquietação.

O seio da montanha?

Vi Galileu entre os sábios
Sorridente.

Fazia rolar uma enorme lua cheia
Pelo plano inclinado do vulcão adormecido.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-05 


















BREVE LEITURA

não é preciso cismar
basta ser gente, vivalma:
uma madeixa, um olhar
chegam para te ler a alma

Aníbal Raposo 
2012-07-05