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A mostrar mensagens de Julho, 2012
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CARTA A MEU AVÔ JOSÉ SALGADO (no dia dedicado aos avós)

Quando me deito à noitinha Eu penso em ti amiúde Queira Deus que esta cartinha Te encontre, avô, de saúde
Muita gente conheci Todos me deram conselhos Nenhum chega aos que aprendi Sentado nos teus joelhos
Eu muito tenho estudado Lido livros de seguida Mas tu, doutor, és formado Na grande escola da vida
Escrevem livros doutores Com ciência que encandeia Mas não são livros melhores Que os campos da minha aldeia
Já corri vilas, cidades Em todas deixei amores Mas sabe Deus as saudades Que eu tenho dos meus Açores
Aqui, são ventos e chuvas Tudo o mais que do céu brota Diz-me lá, tens muitas uvas Na nossa terra da Grota?
Eu não me quero alongar Pois sei que tens que fazer Agora vou-te abraçar Até quando Deus quiser
Um P. S. eu vou fazer Para beijar a avó Esteja eu onde estiver Sem vocês sinto-me só.
Aníbal Raposo Porto 1974-02-16
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LEVEI TRÊS SECOS DE MIM

Hoje fui com a minha amada
Ao estádio em excursão
Ver em disputa animada
Dois clubes do coração

Já levo o cachecol vermelho
Azul o que ela trazia
Éramos assim um espelho
Duma sã democracia

Sendo eu p'lo Santa Clara
E também Portista, no fim
A derrota não foi cara:
Levei três secos de mim.


Aníbal Raposo
Estádio de S. Miguel, 2012-07-25
Troféu Pauleta
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INSTABILIDADE

Por vezes, me quedo
a pensar, também:


a Terra balança
nesta negra dança
de festança e medo.


Apenas um dedo
mago de criança
ainda a sustém.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada 2012-07-24


(foto de Miguel Bidarra)
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GRITOS

Às vezes
Dou-me a beber
O amargo fel
Das palavras cruéis
Que são dias escritos.

Masoquista, eu?
Sabe-me bem...

Faz-me lembrar
E não perder de vista
Que esta vida
Não contém
Só alegrias,
Suaves melodias.

Contém
Também,
Profundos,
Rotundos,
Telúricos,
Impúdicos,
Roucos,
E loucos


Gritos!!!


Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-23
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SOBREVIVENTES

Por isso existimos
E resistimos.

Apesar do medo,
Não obstante a dor,


Brilha um sol ledo
De amor.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-11
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A SORTE ESTÁ LANÇADA


Atirados ao ar estão três dados
Levitam soltos sobre a mão estendida
E em caindo os três ficarão traçados
Assortes e os destinos que há na vida.

Já se a fortuna se te oferecer  
Agarra-a bem pois é teu dever  
Calhando teres sorte o saberes retê-la.
Tem em atenção que ouviste dizer:
A sorte não se atira p'la janela.


E não se pode à fama cantar odes
Saberás ao fim duns anos que bem podes
Ter sorte uma vez, não abusar dela.


Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-10
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O CAMINHAR DOS NÚMEROS

Assim nos querem.

Esculturas perfeitas
Pintadas a cinza
Marchando alinhadas,
E à mão de semear.

Seres sem horizontes,
Privados da música,
Do sal das palavras.

Sem nome
E sem asas.

Pior!
Sem vontade
De voar.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-09
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O PLANO INCLINADO

Olhei
E de repente
Ruiu a gravidade
Da minha inquietação.

O seio da montanha?

Vi Galileu entre os sábios
Sorridente.

Fazia rolar uma enorme lua cheia
Pelo plano inclinado do vulcão adormecido.

Aníbal Raposo
Ponta Delgada, 2012-07-05 
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BREVE LEITURA

não é preciso cismar
basta ser gente, vivalma:
uma madeixa, um olhar
chegam para te ler a alma

Aníbal Raposo 
2012-07-05