sexta-feira, outubro 10, 2008



UMA IMAGEM NO ESPELHO

Quem pensas tu que és,
Ridícula imagem reflectida no espelho?

Ris-te?

Porque tentas tu, sem sucesso
Fazer-te passar por mim?

Eu sou livre e voo sempre que posso. 
Sinto o vento na cara
Quando parto para essas viagens solitárias
Por cima dos telhados da cidade.

Viajo numa envolvente de quatro dimensões:
As três do costume mais a da poesia,
E tenho todas as palavras e letras para comprar
No grande hipermercado das emoções à solta.
 
Tu porém, indigente imagem, 
Estás refém, das letras: x e y
As que definem os dois eixos do plano espelhado
Que é, em simultâneo,
Tua morada e cárcere.

Fazes-me lembrar um velho holandês
Que usa roupas esquisitas
E um grande brinco na orelha,
Num esforço inglório para sobressair
Na extrema monotonia
Da infindável paisagem plana,
Olhar de toda a sua vida.

Pobre de ti, reclusa imagem...
Ris-te apenas quando me acho graça
E choras só quando tiro a máscara
Ou me descontrolo.

Lisboa, 2008-10-09
Aníbal Raposo

2 comentários:

  1. É o nosso interior, mostrado-nos a contra gosto.
    É a faca afiada no fundo das angústias.
    Verdade nua
    exposta na ponta da lâmina em que reflete o rosto...

    Gostei imenso dos teus testos e da forma como expões a palavra...

    Um beijo e muito obrigada pela andança em minha casa

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