segunda-feira, janeiro 27, 2020















POENTE


Hoje
Vou deixar girar a mó.
Não me posso sentir só
Neste cantinho.
Ouve,
Tenho em frente um oceano.
Na cabeça o doce engano
Dum bom vinho.

Fez um belo entardecer.
O pôr-do-sol foi de morrer.
Uma nuvem de estorninhos.
Fim do dia.
Na cara um vento tão quente,
A lua em quarto-crescente,
E os cagarros dão-me tanga
Em sinfonia.

Hoje
Liguei à ilha montanha.
A linha aqui sempre se apanha
Por um triz,
Sorte! Consigo comunicar!
Liguei só para informar
Que sou feliz.



Aníbal Raposo
Rocha da Relva




























Estou aqui nesta mornaça,
Tenho a voz um pouco baça
Anda no ar uma graça,
Que é mulher.
Faço cantigas à toa.
Oh Natália dá-me a loa.
Que a poesia é coisa boa
E p’ra comer.

Hoje
Estou sozinho na fajã.
E bem sei que amanhã
É um novo dia.
Sigo
Aquela estrela cadente.
Há um cheiro aqui presente
A maresia.

O tempo corre devagar.
As uvas estão a pintar.
A vindima será boa
E estou contente
Fico para aqui pensando
(Já nem sei se estou sonhando...)
Que há um gosto amargo-doce
No poente.





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