domingo, novembro 21, 2004





NO DIA EM QUE O CÉU LHE CAÍU EM CIMA

No dia em que o céu se escaqueirou e lhe caiu em cima
Estava estranhamente calmo.

Conta quem viu que até gracejou
Enquanto assinava, como um sonâmbulo,
A sentença que ordenava o seu desterro.

Meia hora mais tarde,
A um canto da ilha,
Desceu às profundezas da cratera.

Contam os pássaros, suas almas gémeas
E guardiães das memórias da Lagoa Verde,
Que nem nos tempos em que a montanha explodiu em terríveis cataclismos
Se ouviram, como nessa hora, na Baía do Silêncio
Gritos mais roucos, soluços mais telúricos.
E que não consta que tenham caído vez alguma
Na superfície daquelas quietas águas
Lágrimas com tal teor de sal.

Contam, também,
Que, ali mesmo, jurou
Que, enquanto vivo fosse,
Nenhuma ave, a quem tivesse ferido por descuido,
Deixaria, alguma vez, por culpa sua,
De ter o ensejo de experimentar o golpe de asa
E de voar, em azul e plena liberdade.

Aníbal Raposo
2003-05-30


1 comentário:

Francisco disse...

Bem vindo, caro Anibal! Belos poemas e imagens. :)